Lélia Gonzalez e o Pretoguês

Esse texto faz parte do artigo “Descolonização, filosofia e ensino: compartilhando vozes de filósofas latino-americanas“, escrito por Joana Tolentino¹. 

 

Filosofia, linguagem, decolonialidade: Lélia Gonzalez² e o Pretoguês

Podemos identificar na tradição filosófica a importância da linguagem e seu uso, porém geralmente identificada pela imposição de rígidas restrições no seu manejo, canonizando uma linguagem excludente que, em nome da reificação de um padrão erudito, exclui o uso mais popular e coloquial da linguagem. Dessa maneira são silenciadas uma série de possíveis interlocutores oriundos de outras classes sociais, lugares geográficos, com  hábitos culturais não-europeizados, aqueles que já  foram outrora denominados como ‘bárbaros’ ou ‘selvagens’, dependendo do momento da história mundial e que hoje são geralmente classificados como terroristas ou refugiados.

De acordo com a filósofa Lélia Gonzalez, o português falado no Brasil seria muito melhor identificado com suas raízes, se o nomeássemos como pretoguês. Lélia cria esse conceito, operando a vocação por excelência da filosofia – a criação de conceitos – para dar conta deste fenômeno com características bastante peculiares que é a língua portuguesa falada em território brasileiro, fruto do encontro de diferentes culturas que aqui estavam ou para cá migraram. Lélia, que muito se dedicou a este estudo, identificava a força da herança linguística das línguas africanas no português falado no território brasileiro, especialmente no que se refere à oralidade, e costumava dizer “gosto de fazer um trocadillo, afirmando que o português, o lusitano, ‘não fala e nem diz bunda’ (do verbo desbundar).” (GONZALEZ, Lélia, 1988, p.70). Esta filósofa brasileira, mineira radicada no Rio de Janeiro, que muito se interessava por linguagem e psicologia social – bebendo em fontes como Lacan, Freud e Frege – focou suas investigações nas influências das línguas africanas na fala de brasileiras e brasileiros.

(…) aquilo que chamo de ‘pretoguês’ e que nada mais é do que marca de africanização no português falado no Brasil (…). O caráter tonal e rítmico das línguas africanas trazidas para o Novo Mundo, além da ausência de certas consoantes, como o l ou o r, por exemplo), apontam para um aspecto pouco explorado da influência negra na formação históricocultural do continente como um todo” (GONZALEZ, Lélia, 1988, p.70)

Um elemento de identificação da africanização do português falado no Brasil é a substituição da letra L pela letra R na maioria das palavras. Bantu era o tronco lingüístico de onde derivavam todas as línguas mais faladas na região de Àfrica de onde veio grande parte das africanas e africanos que foram traficados para o Brasil, durante o longo período da escravidão colonial brasileira (último país a abolir a escravidão em seu território). A despeito da violência dessa migração forçada, suas raízes e legados constituem a beleza do que somos na latinoamérica, tornando-se mais do que necessário, ainda que tardio, reconhecer “essas e muitas outras marcas que evidenciam a presença negra na construção cultural do continente americano” (GONZALEZ, Lélia, 1988, p.71), valorizando-as, nos apropriando delas. Na região da África subsaariana de onde vieram os africanos, havia o predomínio de línguas de caráter mais tonal e rítmico, que desconhecem tanto o fonema associado à letra L, como também o fonema R. Porém, no processo de aprendizagem da língua portuguesa no Brasil, o que foi apropriado de modo mais forte foi o som do R, quando no meio da sílaba, desconsiderando o L. Diante da dificuldade de aprender ambos os fonemas, sons tão distintos daqueles com os quais estavam acostumados a se relacionar cotidianamente, mas diante da urgência em se comunicar, aprenderam o fonema R e o ampliaram para outros casos. Assim, introjetaram o som vibracional do R na ponta da língua e o expandiram também para a pronúncia do L no meio da sílaba. Assim surgiu a pronúncia ‘brusa’, ‘praca’, ‘framengo’ (para as palavras blu-sa, pla-ca, fla-mengo), entre tantas outras pronunciadas oralmente substituindo o L pelo R no meio da sílaba, no pretoguês que aqui no Brasil se fala.

É engraçado como eles gozam a gente quando a gente diz que é Framengo. Chamam a  gente de ignorante dizendo que a gente fala errado. E de repente ignoram que a presença desse r no lugar do l, nada mais é que a marca linguística de um idioma africano, no qual o l inexiste. Afinal, quem é o ignorante? Ao mesmo tempo, acham o maior barato a fala  dita brasileira, que corta os erres dos infinitivos verbais, que condensa você em cê, o está em tá e por aí afora. Não sacam que estão falando pretuguês. . (GONZALEZ, Lélia, 1984, p.238)

Outra característica das línguas africanas faladas na região e que muito contribuem para que falemos pretoguês em solo brasileiro, como afirma Lélia, é a retirada do R gutural do final das palavras (dos verbos no infinitivo, por exemplo), assim como outras contrações, falando a sílaba tônica em substituição à palavra toda, como cê ou tá para, respectivamente, você ou está, tal como mostra a citação. Fenômeno linguístico que vemos avançar, na atualidade, do campo da oralidade para a língua escrita, uma vez que na internet já houve praticamente a abolição, nas redes sociais, do uso do R ao final dos verbos no infinitivo.

Mais um elemento que pode ser citado como proveniente da influência das línguas africanas caracterizando o pretoguês são as concordâncias não operadas nos substantivos, quando na formação dos plurais: os menino, as casa, os fio, as perna. Isso se deve a que, nas línguas africanas dessa região, o plural é dado apenas pelo artigo, não impondo a declinação do substantivo, ficando a construção linguística exatamente como descrita acima. Podemos destacar ainda uma série de palavras no vocabulário oral do pretoguês, signos presentes apenas nos dicionários brasileiros, como elementos que caracterizam a nossa cultura, tal qual ‘bunda’ e as palavras dela derivadas: desbunde, desbundar. É “que na hora de mostrar o que eles chamam de ‘coisas nossas’, é um tal de falar de samba, tutu, maracatu, frevo, candomblé, umbanda, escola de samba e por aí  fora.” (GONZALEZ, Lélia, 1984, p.238).

Apesar da identificação que Lélia e sua filosofia fazem dessas ricas trocas interculturais, valorizando o legado africano no Brasil, que gerou a língua viva do pretoguês aqui falado, não tem havido seu reconhecimento e o devido respeito a essa herança afro-brasileira. Entendemos aqui que essa questão racial segue a mesma linha epistemicida que o espistemicídio de gênero ou misoginia epistêmica. Desse modo, tornam-se indispensáveis ações de reparação no sentido de reverter os quadros históricos de racismo e misoginia, denunciados por Lélia, Bonilla e tantas outras filósofas latinoamericanas silenciadas pela tradição canônica da filosofia. Trata-os sempre como objeto. Até mesmo como objeto de saber. É por aí que a gente compreende a resistência de certas análises que, ao insistirem na prioridade da luta de classes, se negam a incorporar as categorias de raça e sexo. Ou seja, insistem em esquecê-las. (GONZALEZ,  Lélia, 1984, p.232)

 

NOTAS:

¹ – Instituição de vinculação: Colégio Pedro II – RJ/ Brasil, doutorado em filosofia pelo PPGFUFRJ, correio eletrônico: joana.tolentino@gmail.com.

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Lélia Gonzalez de Almeida nasceu em Belo Horizonte, no dia 1 de fevereiro de 1935. Filha de um ferroviário negro e de uma empregada doméstica indígena, tinha mais dezoito irmãos. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, em 1942, morando na favela do Pinto, bairro do Leblon. Um tempo depois, mudaram-se para uma casa em Ricardo de Albuquerque. Léila estudou no Colégio Estadual Orsina da Fonseca e no Colégio Pedro II.

Graduou-se em História e Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Trabalhou como professora da rede pública de ensino. Fez mestrado em Comunicação Social e doutorado em Antropologia Política.

Foi assistente de Tarcísio Padilha, no curso de Filosofia, n a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e, mais tarde, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi professora de Cultura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde chefiou o departamento de Sociologia e Política.

Como professora, ela lecionou em muitas escolas de nível médio, em faculdades e universidades. Foi professora no Instituto de Educação, no Colégio de Aplicação (UERJ), na rede estadual de ensino.

Ajudou a fundar instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga e o Olodum. Sua militância em defesa da mulher negra levou-a ao Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), no qual atuou de 1985 a 1989. Foi candidata a deputada federal pelo PT, elegendo-se primeira suplente.

Em 1982, Lélia escreveu “Lugar de negro”, junto com Carlos Hasenbalg.

Faleceu no dia 10 de julho de 1994, no Rio de Janeiro, aos 59 anos de idade.

É considerada a primeira intelectual negra no País, na Enciclopédia Encarta Africana e em “Mulheres Negras do Brasil”.

 

 

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