Barrett e sua companheira Pauline Reichstul vendiam roupas na boutique “Chica Boa” quando cinco homens entraram violentamente atirando a mão armada. Foi a última vez que Sonja Maria Cavalcanti, a proprietário da loja, as viu com vida.

 Era um dia quente, 08 de janeiro de 1973, no bairro de Boa Viagem, em Recife, estado do Pernambuco. A ditadura militar brasileira consumiu vidas humanas e sonhos de liberdade.
Os sequestradores, que estavam com roupas civis, eram agentes do DOPS (Delegacia Ordem e Política Social), a polícia ditatorial.Soledad congelou quando reconheceu um deles. “Você ! Por que ?” Enquanto eram arrastadas, sem forças para lutar, como conta Sonja Maria.
“Era ele…”, admitiu a proprietária da boutique, Sonja Maria, perante os tribunais brasileiros, 24 anos depois, a reconhecer a foto de “Daniel” (José Antonio dos Santos, o “cabo Anselmo”), que na época era amante de Soledad e pai da criança que ela estava esperando, grávida de 4 meses.Muito tempo depois, foi descoberto que “Daniel” era na verdade um agente duplo da ditadura brasileira, infiltrado nas fileiras da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), movimento de guerrilha liderado por Carlos Lamarca, do qual Soledad fazia parte.

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A longa marcha contra a injustiça

Soledad Barrett Viedma nasceu em 06 de janeiro de 1945 no Paraguai. Seu pai era Alejandro Rafael Barrett Lopez, o único filho do grande escritor e líder anarquista espanhol Rafael Barrett, que chegou ao país em 1904 e participou das lutas sociais de uma época, autor de  importantes reportagens do jornal, como “Quais são os yerbales “, que revelou a escravidão em que os trabalhadores eram sujeitados, conhecidos como os”Mensu”.

Quando Soledad tinha apenas 3 meses de idade, sua família teve de fugir para a Argentina, onde passou cinco anos no exílio.

Incapaz de escapar dos genes revolucionários de seu avô e seu de pai, na adolescência Soledad começou a militar no grupo de “pardais”, ligado à Frente da Juventude-Student de Assunção e FULNA.

A repressão ditatorial forçou a  família a emigrar, desta vez para o Uruguai. “Em Montevidéu, proprietário de uma graça especial para dança folclórica e música, ela se tornou um símbolo da juventude paraguaia. Não teve um ato de solidariedade em que não foi convidada para se apresentar”, lembra Nanny.

O primeiro sequestro no Uruguai

Em 1 de 1962 de julho, quando ela tinha 17 anos de idade, Soledad foi sequestrado por membros de um comando uruguaia nazista.

Eles queriam forçar ela a gritar: “Viva Hitler!  Fora Fidel!”, mas ela se recusou. Com uma faca, desenharam em suas coxas uma suástica (símbolo nazista) e a deixaram atrás do Jardim Zoológico de Villa Dolores.

A jovem paraguaia já militava ativamente nos grupos revolucionários e decidiu viajar para Cuba, onde recebeu treinamento de guerrilha. Lá conheceu o amor de sua vida, o brasileiro José Maria Ferreira de Araújo, com quem se casou e teve uma filha, Naim.

Um fim trágico

Foram anos de ditadura e de terror. Também de luta revolucionária  e de amor. Soledad Barrett tinha 25 anos. quando perdeu o marido, o brasileiro José Maria Ferreira de Araujo.

De Cuba, José Maria retornou ao Brasil, em julho de 1970 para ajudar a fortalecer a luta armada. Em setembro de 1970, foi capturado e morto pelos militares.

Ao chegar ao Brasil e saber da morte de seu marido, a paraguaia decidiu juntar-se ativamente as guerrilhas brasileiras em luta para derrubar a ditadura.

O VPR a enviou para Recife, juntamente com outros lutadores. Lá, ela se reuniu com Anselmo, um ex-amigo militante do marido, que havia conhecido em Cuba.

O “Cabo Anselmo” foi um militar que liderou a “revolta dos marinheiros” em 1964, contra o governo de João Goulart, e tornou-se um herói para os guerrilheiros. Mas a ditadura o havia capturado como espião de casal e tinha a missão de informar sobre os seus pares.

O cabo se aproximou de Soledad, que passou a viver como sua parceira. Soledad ficou grávida dele sem a desconfiança que era apenas um objeto para manter a fachada de Antonio.

Em 08 de janeiro de 1973 foi a “entrega”.

Junto com Soledad, foram sequestrados Pauline Reichstul, Eudaldo Gomez da Silva, Jarbas Pereira Márquez, José Manoel da Silva e Luiz Evaldo Ferreira.

Os corpos foram encontrados em uma fazenda em São Bento, município de Abre e Lima, perto de Recife. A procuradora Mércia Albuquerque relata sobre:  “Em um tambor foi encontrada Soledad Barret Viedma, nua e com sangue nas coxas e pernas, no fundo do poço, onde também estava um feto “.

No entanto, seu corpo nunca foi entregue e Soledad ainda é considerada uma pessoa desaparecida.

Poucos dias depois de completar 28 anos, a neta do grande revolucionário Rafael Barrett, terminou sua vida de forma violenta, traída por seu próprio amante e pai da criança que ela carregava em seu ventre.

Reivindicada no Brasil, pouco conhecida no Paraguai

No bairro Jardim Adelfiore de São Paulo, Brasil, no número 315 da rua Tarcon, há uma escola municipal chamada Soledad Barrett Viedma, onde os alunos lembrar dela como “uma lutadora paraguaia heroica, que deu sua vida pela liberdade.”

No Paraguai, o nome de Soledad Barrett ainda é desconhecido para a grande maioria das pessoas, apesar de seu avô, Rafael Barrett, ele sim é mais conhecido.

Aqueles que conhecem um pouco da história de Soledad, conheceram através de um poema escrito pelo poeta uruguaio Mario Benedetti ou compositor Daniel Viglietti, que a conheceram pessoalmente no Paraguai e em Montevidéu e fizeram seu tributo artístico.

Desculpas pelo Estado brasileiro

Em 11 de dezembro, 2015, Soledad Barrett Viedma foi declarada oficialmente anistiada política, post-mortem, pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça do Brasil.

“Esse crime contra Soledad Barrett Viedma é o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil”, escreveu o jornalista brasileiro Urianiano Mota, autor de Soledad no Recife, publicado em 2009.

“Seu corpo ainda está desaparecido e até hoje não foi emitido o atestado de óbito. Declarada oficialmente morta e enterrada pela responsabilidade do Estado brasileiro, Soledad é agora também uma brasileira anistiada para todas as perseguições que sofreu na vida”, disse o presidente da Anistia Comissão, Paulo Abrão.

“Sua filha, Ñasaindy Barret de Araújo, formalmente recebe o pedido de desculpas do Estado brasileiro”, disse o chefe da comissão.

Escrito por Andrew Colman Gutierrez, no site Ultima Hora. Traduzido por: As Mina na História.

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