Ela estreou Arlette Pinheiro Esteves da Silva no dia 16 de outubro de 1929, no bairro de Campinho, Rio de Janeiro. Filha de um mecânico e uma dona de casa, é a mais velha de três irmãs. Seus avós paternos eram portugueses, e os maternos italianos – seu avô materno esteve entre os imigrantes que construíram o teatro municipal. E foi do ambiente teatral que saiu tanto sucesso.

Sua primeira peça foi aos 8 anos de idade, encenada na igreja do bairro. Quando criança, já era apaixonada pelo cinema, ia várias vezes por semana e até várias vezes ao dia. Aos 12 anos, Arlette terminou a educação primária e começou o curso de secretariado. Mas sua formação como secretária nunca foi concluída.

Aos 15 anos, em 1944, Arlette se inscreveu em um concurso para locutores da Rádio Ministério da Educação e Cultura. Ela passou e conseguiu seu primeiro emprego.

Arlette era muito tímida, e entende a rádio como se fosse uma universidade em sua vida. A Rádio MEC ficava ao lado da Faculdade de Direito da UFRJ, que tinha seu grupo de teatro amador. A garota tinha dois colegas de rádio que eram alunos da faculdade. Foi por sua ligação a eles que entrou para o grupo e conseguiu sua primeira personagem: Cassona, na peça “Nuestra Natascha”.

Na rádio, Arlette passou a trabalhar como locutora e também como atriz. Sua primeira obra foi “Sinhá Moça Chorou”, no papel da protagonista Manoela, que se apaixonava por Garibaldi. Ao mesmo tempo, ela dava aula de português para estrangeiros, porque o trabalho na rádio nem sempre era remunerado.

Foi na Rádio MEC, como locutora e atriz, que Arlette começou a carreira de artista. Quando começou a escrever, ela adotou o nome de Fernanda Montenegro. Queria ser uma grande escritora com um grande nome.

Fernanda se tornou literalmente o “nome artístico” desta mulher. Fernanda mora nos palcos, é forte, desbravadora, destemida. Arlette também é fortíssima, mas à sua maneira: em casa, com a família. Esposa, mãe, gosta de cuidar do lar e tem até hobbies domésticos, como costurar. Ainda que Fernanda por vezes tome o tempo de Arlette, uma é fundamental para a existência da outra. Fernanda é pessoa pública, Arlette é para os íntimos. Ambas são interpretadas pela mesma atriz.

O coordenador do grupo de teatro da faculdade, Adauto Filho, gostou de Fernanda e a convidou para o grupo do Teatro Ginástico. Ela se sentiu em casa, em meio a jovens que também tinham o sonho da carreira artística. Entre eles, Nicete Bruno, Beatriz Segall e Fernando Torres, que se tornaria seu marido. Os dois atuaram juntos na peça “3.200 Metros de Altitude”, estreia profissional de Fernanda no teatro.

Nessa época, a televisão estreava no Brasil em São Paulo. No Rio de Janeiro, a TV Tupi chegou em 1951. Fernanda fez um papel aqui, outro ali e não demorou muito para que fosse a primeira atriz contratada da emissora. Mas houve uma condição. Seu nome verdadeiro, Arlette, foi considerado muito comum para uma atriz de TV, que deveria ter um nome mais forte. Fernanda foi o escolhido.

Em apenas dois anos, de 1951 a 1953, Fernanda participou de cerca de 80 peças na Tupi. Foi então que ganhou seu primeiro prêmio: Atriz Revelação da Associação Brasileira de Críticos Teatrais.

Em 1953, Fernanda Montenegro e Fernando Torres se casaram na pequena igreja de São Cristóvão. Ela com 23 anos, ele com 26. A noiva usou um vestido emprestado de sua melhor amiga, Eva Todor, que era recém casada. Não tinha dinheiro para comprar seu próprio vestido.

Fernanda sabe que tem personalidade forte e independente, que continuou existindo depois de casada. “Somos um bando de mulheres muito loucas na minha família, embora todo mundo ache que nós somos domadas. Por fazermos de nossas casas verdadeiras cidadelas, muitas vezes somos prepotentes. Temos talento em nossas profissões, uma presença forte e igualitária dentro de casa, e dividir um lar dessa maneira é uma batalha”, ela admite. Ainda assim, Fernanda e Fernando foram um casal muito unido no trabalho e na vida. A cumplicidade e o companheirismo entre os dois existiu até o falecimento dele, em 2008.

No ano seguinte, o casal se mudou para São Paulo, e a vida paulistana não era fácil. Eles moravam em pensões baratas, faziam só uma refeição por dia, trabalhavam muito. Além disso, voavam para o Rio de Janeiro toda semana para fazer teleteatros na TV Tupi e voltavam para o teatro em São Paulo.

Em 1959, Fernanda e Fernando fundaram seu próprio grupo de teatro, o Teatro dos Sete, que foi mantido também por Ítalo Rossi, Sérgio Britto e Gianne Ratto. A estreia do grupo foi com a peça “O Mambembe” no Theatro Municipal do Rio de Janeiro – aquele que seu avô ajudou a construir. O espetáculo fez enorme sucesso.

Ainda assim, os dois definitivamente não estavam nadando no dinheiro. A renda das bilheterias dava apenas para pagar o diretor. Fernanda e Fernando não ganhavam nada.

Fernanda chegou a atuar em 160 peças até 1965. Segundo a atriz, foi a televisão que permitiu seus “voos cegos no teatro”. Ela estima ter feito, entre São Paulo e Rio, cerca de 500 peças.

Fernanda é conhecida entre os amigos de teatro por sua dedicação às personagens. Repetia o texto várias vezes, procurando criar intimidade com a personagem, entender seu mundo e entrar em seu mundo.

A estreia em novelas na TV veio em 1963, quando foi contratada pela TV Rio. Quando a TV Globo nasceu, em 1965, Fernanda já estava lá, participando do programa “4 no Teatro”. Em 1967, na TV Excelsior, ela esteve no elenco da novela “Redenção”, uma das mais longas da história, com 596 capítulos.

Em 1962, nasceu o primeiro filho de Fernanda Montenegro, Claudio. Ela e o marido tentaram ter filhos durante muito tempo e chegaram a recorrer a tratamentos médicos. Em 1965 nasceu Fernanda Torres, segunda filha do casal. As duas gestações foram difíceis, fazendo com que a atriz tivesse que ficar de repouso. Mesmo assim, ela trabalhou até os oito meses na gravidez da filha, na novela “A Morta Sem Espelho”. Para sua barriga não aparecer, os takes mostravam a gestante só do pescoço para cima.

Nos anos 1960 e 1970, Fernanda não era atriz exclusiva de nenhuma emissora, e chegou a ter trabalhos avulsos na Excelsior, Globo e Bandeirantes. A primeira novela da Globo foi logo “Baila Comigo” (1981) de Manoel Carlos, com a personagem Sílvia Toledo Fernandes escrita especialmente para ela.

Daí para frente, Fernanda deixou cada vez mais forte sua marca na teledramaturgia. Fez “Guerra dos Sexos” em 1983, com destaque para a cena hilária em que brigava com o personagem de Paulo Autran na mesa de café da manhã (com direito a uma incrível guerra de comida). Por essa novela, ganhou o prêmio de Melhor Atriz da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Uma série de novelas de sucesso constam no currículo de Fernanda Montenegro, como “Cambalacho”, “Rainha da Sucata” e “Belíssima”. Mas houve também um fiasco: a novela “Zazá”, protagonizada por ela e considerada um dos maiores fracassos da TV brasileira.

Mas é claro que isso nem de longe abalou a carreira da atriz. Em 1999, ela alcançou o reconhecimento que nenhuma outra brasileira havia alcançado. Sua performance no filme “Central do Brasil” fez com que Fernanda Montenegro fosse a primeira brasileira indicada ao Oscar como Melhor Atriz. Ela não ganhou o prêmio, que acabou indo para Gwyneth Paltrow para “Shakespeare Apaixonado”. Mas, cá entre 200 milhões de nós brasileiros, continua a convicção de que Fernanda era a grande merecedora.
De volta ao Brasil, recebeu do presidente Fernando Henrique Cardoso a Ordem Nacional do Mérito Grã-Cruz “pelo reconhecimento ao destacado trabalho nas artes cênicas brasileiras”.

Ainda em 1999, outra atuação memorável de Fernanda: ela viveu Nossa Senhora na adaptação de “O Auto da Compadecida” feito por Guel Arraes para o cinema. Neste ano, em que completou 50 anos de carreira, também ganhou uma exposição em sua homenagem no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Por duas vezes, nos governos de Sarney (1985-1989) e de Itamar Franco (1993-1994), Fernanda foi convidada para ser Ministra da Cultura, mas recusou as duas oportunidades. Em carta ao governo, ela explicou que não se sentia preparada para abandonar a vida artística e não tinha medo do cargo que lhe era oferecido, mas entendia que era muito melhor no palco do que no ministério. “Sou uma mulher de teatro”. Esta é a minha praia. Esta é a minha vocação”, disse a atriz.

No cinema, Fernanda também se destacou nos filmes “A Hora da Estrela” (1985), adaptação do livro de Clarice Lispector; “Eles Não Usam Black Tie” (1980), “Olga” (2004), “Redentor” (2004), dirigido por seu filho Claudio, e “Casa de Areia” (2005), em que contracena com sua filha Fernanda.

Arlette acredita que foi “a mãe que poderia ser”. Os filhos cresceram assistindo suas performances e também seguiram carreira artística. Cláudio, como diretor, artista plástico e cenógrafo, e Fernanda como atriz. Ela teve influência mais direta da mãe, que foi ver uma peça sua com caderninho de anotações. Parece a mãe rígida, né? Mas Fernanda não é de se impor sobre a vida dos filhos.

Nem Fernanda nem Arlette. Em sua casa, nunca teve pudores ou tabus com as crianças, preferindo ser franca, não se intrometer nas particularidades de cada um quando eram adolescentes e conversar muito. “Minha mãe ficou sábia antes de ficar velha”, comentou Fernanda Torres.

Na TV, Fernanda continua encantando e se destacando. Em 2015, formou par romântico com Nathalia Timberg em “Babilônia”, alertando para o reconhecimento dos direitos dos casais homossexuais. E, em 2013, venceu o Emmy Internacional pela interpretação da fofa Dona Picucha no telefilme – que depois se tornou seriado – “Doce de Mãe”.
Além da admiração dos fãs, a atriz também é admirada pelos amigos. Milton Nascimento compôs uma música para ela, chamada “Mulher da Vida”. Fernanda incentivou a carreira de atores e atrizes como Giulia Gam e Zezé Polessa e se dá bem com os mais jovens, que carinhosamente a chamam de Fernandona.

Fernanda já declarou em entrevistas que não gosta de ser chamada de monstra consagrada da televisão, por achar que isso dá impressão de que a pessoa já era, já foi. Para ela, não existe um ator maior do que o outro porque ninguém pode de fato ocupar o lugar de ninguém – cada profissional e ser humano é único. É assim que ela prefere falar de si mesma: “Não sou uma pessoa fácil, mas sou uma pessoa simples. Sei que sou muitas. E a vida me deu oportunidade de ser muitas. Por isso repito muitas vezes a frase de Clarice Lispector: “Eu sou mais forte do que eu””.
Quando criança, Fernanda tinha medo de ser esquecida. Depois de todo o sucesso e carinho que obteve e tem obtido em sua vida, fica claro que não há a menor possibilidade de isso acontecer. Ainda assim, no posfácio que escreveu para o livro “Fernanda Montenegro em O exercício da paixão”, ela comenta sua visão sobre a posteridade:

“Peço perdão pela minha presunção inútil de tentar alcançar a posteridade, fato impossível de acontecer a um ator ou atriz, porque a nossa raça de gente só existe enquanto atua na vida e, principalmente, no palco”.

*Esse texto foi escrito e enviado por Fernanda Lopes, jornalista, social media e especializada em escrita criativa. Acredita que, juntas, as mina podem fazer muito mais história.

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