Pra começar, é preciso lembrar que feminismo é um movimento de mulheres que busca a emancipação feminina, dos seus corpos e de suas mentes. É a busca por igualdade, equidade e liberdade. Não é o contrario de machismo, não é ser superior aos homens.

Marília Mendonça é a mulher que atualmente manda no sertanejo. Ela nasceu em Cristianópolis, interior de Goiás, e tem 21 anos. Trabalhando como compositora há algum tempo, escreveu grandes sucessos de Jorge e Mateus, Henrique & Juliano, Cristiano Araújo e João Neto & Frederico.

Começou a cantar faz pouco mais de um ano, sendo atualmente a artista mais vista no YouTube brasileiro. Entre 1 de junho e 11 de julho, o canal da cantora na rede social de compartilhamento de vídeos ultrapassou 289 milhões de visualizações. No total, ela já ultrapassa Justin Bieber e outros grandes nomes da música.

Marília pode não se considerar feminista, mas representa muito o que o feminismo quer. Entenda o porque:

1 – Ela canta de mulher pra mulher:

Assim como os outros estilos musicais, o sertanejo está cheio de letras machistas e sexistas, que sempre objetificam a mulher. Nomes masculinos sempre dominaram as paradas sertanejas, com canções onde as mulheres apareciam como musas, amantes e afins.

Em entrevista ao site “O popular”, Marília disse: “Canto histórias minhas que elas se identificam. Mulher não é mais aquela princesinha que fica esperando o príncipe encantado em casa. Mulher sai, vai pra festa, bebe, é traída e trai também. Faltava alguém vir e falar quem é a mulher atualmente e eu fiz isso. (…) Quem tem de falar pela mulher é a própria mulher. Nas canções cantadas pelos homens, eles falam deles e diziam o que tínhamos de falar e fazer. Agora estamos falando de mulher para mulher, o que elas querem ser, como querem se comportar.

Além de fazer as mulheres se ouvirem mais e se perceberem, ela fala sobre auto estima, relacionamentos abusivos e sobre mulheres que não são princesas: que bebem, que vão às festas, que são livres.

2 – Ela alcança todas as classes:

Neste ano, Marília invadiu todas as playlists, até de quem não ouvia sertanejo. É sempre bom lembrar que apenas 50% da população brasileira tem acesso à internet, ou seja, a tv e o rádio tem uma força imensa. Ocupando esses espaços, Marília leva uma nova perspectiva de música: a das mulheres. Para além de um feminismo de internet ou academicista, onde se fala de Simone de Beauvoir, Frida Kahlo, Pagu e afins,  ela atinge um público imenso, falando do feminismo na prática.

Com letras que falam de mulheres deixando relacionamentos abusivos, como por exemplo “Infiel” (onde ela briga com o cara e fala numa boa com a outra mina, dando um leve toque: ele não vai mudar), “Alô Porteiro“, “Folgado“(Não venha não/Eu vivo do jeito que eu quero/Não pedi opinião/Você chegou agora e, ta querendo mandar em mim/Da minha vida cuido eu”), “Direitos Iguais” e outras, falando de uma mulher autônoma e livre.

Para Carla Sampaio, de 26 anos, que tem uma playlist mais puxada por rock e pro MPB, Marília Mendonça chega com uma playlist inteira apta de feminismo bem representado, com a mesma autenticidade e sabedoria de Cindy Lauper com o clássico feminista “Just Wanna Have Fun“.

3 –  Acaba com a rivalidade feminina: 

Em uma sociedade machista, as mulheres crescem em um cultura onde se odiar é normal. Não existe uma irmandade, igual a “broderagem” dos homens. As mulheres são ensinadas a se odiar e estar em uma constante disputa por homem. São muitas as musicas sertanejas que alimentam essa rivalidade. Em suas músicas, Marília acaba com isso. Na canção “Se ame mais“, ela fala com a ex do atual namorado:

Eu queria dizer pra ela
Que ela é nova e inteligente
Tem tudo pela frente
Merece ser feliz como a gente
Mas ela tá fazendo diferente

Superar não é tão fácil
Mas se torna necessário
E por questão de honra
Se eu fosse você deixava isso enterrado
Você tem que seguir em frente (…)”

4 – Ela não está nem aí pro padrão de beleza:

Cintura fina e roupas sensuais: tudo aquilo que uma mulher deve ter para fazer sucesso nos meios musicais. Marília rompe com o padrão de beleza da nossa sociedade. É uma mulher gorda e livre, que usa as roupas que quer, shorts curtos, tênis e tudo aquilo que a deixe confortável.

Sou tranquila, descomplicada. Gosto de me sentir bem e confortável. Ninguém merece fazer 1h40 de show usando salto alto! Eu subo ao palco para cantar e mostro que estou ali para isso, não para um desfile. Eu não sou nenhum tipo de modelo, nunca vou ser. Quero que as pessoas vão ao meu show para ouvir minha voz. Sempre peço para não exagerarem na minha maquiagem, não quero mudar nada em mim. Quero continuar sendo esta Marília e serei assim até as pessoas entenderem“, comentou, em entrevista à revista Contigo.

Recentemente, durante participação no Domingão do Faustão, ela cortou uma piada do apresentador relacionada ao corpo e aos hábitos dela. Ao perguntar sobre o bar mantido pela família dela em Goiânia (GO), ele perguntou se o local tinha falido porque Marília comeu e bebeu tudo. “Já vai começar com as piadas de gordo, Faustão?“, disparou.

5 – Ela também racha os boy lixo:

Nada de ficar se arrastando e sofrendo por boy lixo, Marília fez uma música pra gente dedicar praqueles caras babacas que aparecem no caminho:

“O meu cupido é gari
Só me traz lixo
Lixo, lixo, você é prova disso
Não me tratou bem
Não me deu valor
Será que eu mereço esse tipo de amor?
Só decepção pro meu coração
Cupido inconsequente
Sem rumo, sem direção”

Marília Mendonça pode não saber, mas é sim feminista. E se você tem dúvidas se também é feminista, basta ler esse texto da Clara Averbuck: Feminismo para Leigos.

A revolução será feminista 🙂

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