O machismo não incomoda Fernanda Torres. E não há motivo para que pudesse incomodar: foi o machismo que criou grandes personagens da carreira de Fernanda, as famosas caricaturas da mulher histérica.

Histérica, apavorada, paranoica, louca. Essa é a Vani, de “Os Normais”, a caricatura da mulher numa eterna TPM. Como se a doidice fosse um estado natural do gênero feminino, Vani é absurdamente histérica e controlada pela falta de controle de seus hormônicos, e segue milimetricamente o padrão ridículo que o machismo cria sobre a mulher: doida.

Vani

A Fátima de “Tapas&Beijos” também cumpre à risca os requisitos de caracterização feminina a partir do machismo: desesperada pelo casamento, ela corre atrás de homens mendigando amor e atenção, e faz papel de ridícula misturando sua incompetência profissional com a atrapalhada vida sentimental. Sendo assim, Fernanda Torres não tem mesmo do que reclamar do machismo, ela tem mais é que agradecer. O machismo ofereceu dois estereótipos que ela encarnou com vivacidade cega: a desesperada pelo casamento e a problemática dos hormônios.

fatima

Isso é uma crítica ao papel, à carreira ou a performance? A nada disso, exatamente. Isso é uma crítica à uma postura política leviana: mesmo interpretando tão bem dois estereótipos vulgares do que é ser mulher na sociedade brasileira, Fernanda Torres não os encara como uma ofensa a ela própria. Não considera que, apesar do humor que o trabalho artístico possa gerar, o riso está fundado numa estigma social exageradamente forçado de propósito.

 A questão de “fazer humor” divide opiniões por tudo que é lado quando o assunto é limite. Mas não consigo encontrar definição melhor para “limitações do humor” do que o desabafo da Romagaga, personagem recentemente extinta. A Romagaga se deparou com uma realidade : travesti, só se for pra ser ridícula. Pra fazer rir da própria cara, da própria vulgaridade, da própria bizarrice. Pra ser levada a sério, não.

O desabafo da Romagaga (aqui) foi uma percepção política de que por maior que fosse seu alcance, sua visibilidade e sua fama, ela estaria ainda encaixada na ridicularizarão da travesti, que deve existir apenas para desempenhar papel de palhaça. Se ela ousar dedicar um minuto de seus clipes para tratar do homicídio de travestis e transexuais no Brasil, ou se questionar por 30 segundos a ausência de transexuais no mercado de trabalho, ou se simplesmente exigir respeito mesmo, seu alcance estará fadado ao fracasso. E isso trouxe a catarse ou despertar da Romagaga: travesti não é bagunça, e a palhaça morreu agora.

romagaga

Mas para Fernanda Torres, que confunde relógio biológico com relógio social, que confunde cantada de rua com reforço de autoestima, que confunde evolução do divórcio com a existência de “lares sem pai”, e que confunde quase tudo que já foi escrito sobre feminismo dentro e fora das academias, o machismo vai trazendo o pão de cada dia sem causar desconforto algum. Leva até a crer que ela acredita realmente na Vani e na Fátima, na loucura pré-existencial (biológica, como ela justifica no texto) da mulher, e num repúdio atrapalhado desse estereótipo que ela mesma encarna na TV, se diz uma admiradora do “companheirismo” dos homens e da geração que a criou, que era “irresistível até nos preconceitos”.

Tão irresistível devem ter sido que não parecem ter levado-a a se questionar sobre a conduta deles. Enquanto acordamos todos os dias para descobrir o racismo, machismo e a homofobia dentro de nossos casa, mesmo provocando distúrbio mental e desassossego perante aqueles que respeitamos, os “irresistíveis preconceitos” para Fernanda permanecem saudosos (me pergunto se ela sabe que esses “irresistíveis preconceitos” poderiam ter acabado com a vida dela há um tempo atrás).

João Ubaldo

O que lamento é que um dos maiores relatos feministas já publicados no Brasil está no teatro na voz e corpo de Fernanda Torres. “A Casa dos Budas Ditosos”, aquela narrativa quase surreal sobre pornografia, sexo sem limites, incesto, zoofilia ditada por uma senhora de 68 anos é na verdade um relato de libertação sexual de uma idosa que viveu os meandros da privação erótica para mulheres, na Bahia dos anos 1950. Enviado em fitas cassete por idosa não-identificada para o escritor João Ubaldo Ribeiro e lançado na série “Plenos Pecados” da Editora Objetiva,  “A Casa dos Budas Ditosos” é muito mais que uma historinha pornográfica. É uma vida de libertação sexual em todos os sentidos contrastando com a repressão política e social à vida das mulheres brasileiras, em especial as baianas. Em resumo, é de deixar qualquer “Cinquenta Tons de Cinza” debaixo do chinelo, é uma reflexão política e antropológica sobre como o corpo e a mente da mulher ainda são esmagados pelos pilares da estrutura machista social. Que Fernanda Torres é atriz e interprete isso de uma forma profissional e artística, não tenho dúvidas.

Mas que ela não faça a menor ideia do quanto o feminismo é essencial para que ela suba num palco, para que ela leia uma placa, para que ela use calças ou para que ela tenha sobrevivido após o divórcio, é um fato desesperador, confuso e triste. Fernanda vestiu bem os sapatos de Vani e as roupas de Fátima, e em vez de combater os estereótipos que ela própria ajudou a criar, condena quem o faz. É mais uma daquelas confusões preguiçosas de entender o feminismo, misturado com Síndrome de Estocolmo.

Fernanda Torres…? Argh, não. Hoje eu vou de Romagaga 🙂

Texto por Helena Vitorino

Para saber mais:

Brasil é o país que mais mata travestis no MUNDO

Pra quem acha que feminismo é MIMIMI – Parte 1

Veja o que acontece quando uma mulher se posiciona politicamente

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