“Por muito tempo na história, ‘autor anônimo’ na verdade era uma mulher”.
A frase de Virginia Woolf é aplicável à quase todos os terrenos em que as mulheres ousaram pisar. E na Literatura não foi diferente. Carolina Nabuco de Araújo lançou em 1934 uma obra prima literária cuja adaptação para o cinema rendeu dois Oscars. Nenhum deles, no entanto, veio parar em terras brasileiras, ou sequer foi reconhecido como mérito de Carolina.

“A Sucessora” é o romance original, evidentemente plagiado por Daphne Du Maurier nos escritos de”Rebecca, a Inesquecível”. A obra foi adaptada por Alfred Hitchoock para os cinemas e emplacou nada menos do que onze indicações ao Oscar, duas estatuetas, e a abertura do Primeiro Festival Internacional de Berlim.

Rebecca

Cena do filme “Rebecca”

Por que nenhum reconhecimento da obra foi concedido à autora original do livro? O motivo foi um plágio histórico que marcou a presença de uma das maiores autoras brasileiras.

Carolina Nabuco nasceu no Rio de Janeiro, em 1890. Escreveu e publicou o romance de conflito psicológico “A Sucessora” no auge de seus 44 anos, sem grande impacto na comunidade leitora brasileira da época. Uma ambição de Carolina era ver sua obra publicada fora do Brasil, o que a levou a traduzi-la para o inglês e enviá-la a  uma agência literária em Nova York, com a promessa de que a obra seria também entregue a um livreiro em Londres. A resposta que Carolina esperava nunca veio. O que chegou, depois de alguns anos, foi a muito-bem-divulgada novela “Rebecca”, de Daphne Du Maurier. Os mesmos personagens. A mesma trama. Os mesmos episódios. E uma surpresa desagradável: Daphne era uma conhecida leitora dos arquivos que recebia o livreiro britânico, e havia lido a tradução enviada de “A Sucessora”.

Carolina Nabuco

Carolina Nabuco de Araújo

O livro de Daphne foi um sucesso mundial impressionante. Tão grande que a adaptação cinematográfica saiu em apenas dois anos, um feito extraordinariamente rápido para a década de 1940. Alfred Hitchock assinou a direção do filme. David O. Selznick, produtor de “E o Vento Levou”, lançou-se imediatamente para produção. Realizado com pouco menos de 1 milhão e meio de dólares, o filme arrecadou mais de 6 milhões no total. Tudo impecavelmente pensado para retratar a história da jovem interiorana que se casa com um bilionário e passa a conviver com o fantasma de sua falecida e perfeita esposa Rebecca. O filme foi a derradeira convicção do plágio: quando estreou no Brasil, advogados da United Artists, armados até os dentes, vieram ao país e contataram o advogado de Carolina, convidando-a a assinar um termo em que afirmava que a semelhança dos livros era fruto de “mera coincidência”.

Daphne

Daphne Du Maurier

Apesar do profundo desgosto ao saber do plágio copiosamente nítido de sua obra, Carolina Nabuco optou por não processar os envolvidos. O ocorrido se tornou um escândalo no Brasil, e para todos os nacionais era de plena convicção de que “Rebecca” era uma grande farsa desrespeitosa. Essa ciência já tranquilizava Carolina Nabuco, conforme ela relata em seu livro “Oito Décadas”. Mas a vinda dos advogados a desrespeitou ainda mais. A autora recusou não só o termo, mas também a quantia patrimonial que ele traria em dólares. Não havia coincidência nenhuma em “A Sucessora” e “Rebecca”. Havia um roubo de propriedade intelectual que lucrou barris de dinheiro na imaginação e habilidade de uma escritora brasileira.

Não é possível afirmar que se “A Sucessora” tivesse sido filmada em estúdios nacionais teria a mesma repercussão global que teve “Rebecca”. Também não é possível afirmar que poderia renderia Oscars. Mas é fato inabalável que a obra de Carolina Nabuco é originalmente o recurso primário que se usou Daphne Du Maurier, e de tanta qualidade que exprimia a primeira, fez sucesso internacional inatingível, mesmo que com nome oculto.

Sucessora

O livro teve adaptação para uma telenovela brasileira da Rede Globo, de mesmo nome da obra. Caso semelhante ocorreu com “As Aventuras de Pi”, livro internacionalmente famoso, cujo filme também rendeu Oscars, e cuja história também foi plagiada de um escritor brasileiro: o autor Moacy Scliar.

Texto por Helena Vitorino

Fontes Para Saber Mais:
http://www.nytimes.com/2002/11/06/books/06NOVE.html?pagewanted=all

http://www.uesc.br/seminariomulher/anais/PDF/MARCELO%20MEDEIROS%20DA%20SILVA.pdf

Daphne Du Maurier ‘Rebecca’ Plagiarism Case

https://pt.wikipedia.org/wiki/Carolina_Nabuco

http://porcoselefantesedoninhas.blogspot.com.br/2015/06/um-bambole-de-chama-e-cinzas.html

Anúncios