Em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR), o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) lançou  a quinta edição das Pioneiras da Ciência no Brasil. O Programa Mulher e Ciência já lançou  quatro séries de verbetes sobre as pioneiras das ciências no Brasil, com a divulgação do trabalho de várias cientistas e pesquisadoras brasileiras que participaram e contribuíram de forma relevante para o desenvolvimento cientifico e a formação de recursos humanos para a ciência e tecnologia no Brasil.

Conheça as 7 mulheres desta edição:

Ayda Ignez Arruda (1936 – 1983)

Matemática

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Ayda Ignez Arruda nasceu em Lajes, Santa Catarina, no dia 27 de junho de 1936, filha de Lourenço Waltrick Arruda e Izabel Pereira do Amarante.

Bacharelou-se em matemática em 1958 e concluiu a sua licenciatura no ano de 1959, ambos na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica do Paraná. Obteve o título de doutora e livre-docente com a tese “Considerações sobre os Sistemas Formais NFn”, sob a orientação do professor Newton C. A. da Costa, na Universidade Federal do Paraná, em 1966.

Iniciou sua carreira acadêmica na Universidade Federal do Paraná como professora de Análise Matemática e Superior na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, no ano de 1960.

Arruda manteve contato com lógicos e matemáticos do exterior e do Brasil durante a sua formação científica. Dentre eles, destacamos os professores: Marcel Guillaume, da Université de Clermont-Ferrand da França; Antonio Monteiro, da Universidade de Bahía Blanca, Argentina; Andrés Raggio, da Universidade de Córdoba, Argentina; e Mário Tourasse Teixeira da Faculdade de Filosofia de Rio Claro, São Paulo.

Em 1968, transferiu-se para Campinas, no estado de São Paulo para assumir como professora titular da área de lógica e fundamentos da matemática, no Instituto de Matemática, Estatística e Ciência da Computação (IMECC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Alguns anos depois, em 1975, organizou o Simpósio de Lógica Matemática, na Unicamp, tendo como principal conferencista, o matemático polonês, Alfred Tarski.

Por quase vinte anos estudou e criou sistemas não-clássicos de lógicas paraconsistentes, publicando vários trabalhos científicos. Foi a primeira colaboradora do professor Newton C.A. da Costa, com quem publicou diversos artigos em periódicos internacionais. Nos últimos anos de sua vida, analisou exaustivamente os artigos publicados por Vasili’ev, em particular os relacionados com a Lógica Paraconsistente.

Ayda Arruda foi a primeira pesquisadora a formalizar as idéias de Vasil’ev, obtendo, como resultado as lógicas paraconsistentes. Seus estudos são referência para muitas gerações de matemáticos e lógicos

Arruda organizou os Encontros Brasileiros de Lógica, em 1976, e o 3rd Latin American Symposium on Mathematical Logic (III SLALM), ambos realizados na Unicamp. Foi professora visitante e conferencista em diversas universidades nacionais e estrangeiras, dentre as quais citamos: Université Claude-Bernard, na França; Universytet Mikolaya Kopernika, na Polônia; Universidade Católica do Chile, no Chile.

Em 16 de abril de 1980, assumiu a direção do IMECC permanecendo no cargo até seu falecimento no dia 13 de outubro de 1983. No ano de 1985, a Unicamp organizou o VII Simpósio Latino-Americano de Lógica Matemática dedicado à memória de Ayda I. Arruda.

Fontes e Autora do verbete

Diana Mussa (1932-2007)
Paleobotânica

Diana Mussa
Diana Mussa nasceu em 19 de janeiro de 1932, na cidade de Campos dos Goytacazes (RJ), em uma família de professores, imigrantes libaneses. Ainda no Líbano, seu pai, Nagib Mussa, ministrava aulas de Língua Francesa e sua mãe, Maria Chacur Mussa, de Língua Inglesa, em uma escola dirigida por seu avô, David Mussa. Era a mais nova entre cinco irmãos, todos com curso superior.

Desde criança foi muito estudiosa, amiga de todos, extremamente bondosa e desprendida. Nesta fase, já demonstrava seu amor pelos seres vivos, amava os animais e cuidava deles quando encontrava algum doente. Os familiares brincavam: “-Ela é a deusa Diana, a Deusa da Caça, por isso é que gosta tanto de animais”. Sonhava, desde sempre, ser Naturalista.

Assim, em 1952, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na graduação em História Natural na Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Brasil ¿ UB (atual UFRJ). Inquieta, dedicada e com sede de saber, cursou também o curso de Geologia na mesma instituição. Neste período, aprofundou seus estudos, realizando estágios com grandes pesquisadores, tanto da Botânica, quanto da Geologia. Desta maneira, adquiriu toda a base para a preparação e o estudo de madeiras atuais com o Dr. Fernando R. Milanez, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), e, com o Dr. Calvino Manieri, no Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT/SP). No Departamento Nacional da Produção Mineral (DNPM) estagiou, inicialmente, com Dr. Alberto Ribeiro Lamego, grande geólogo de campo. Posteriormente, já com os paleobotânicos Dr. Friedrich Wilhelm Sommer, Dr. Elias Dolianiti e Dr. Richard Kräusel.

Ao final da década de 50, movida pelo seu intenso amor ao próximo e desejo de se dedicar também aos pobres, ingressou no Convento das Clarissas. Nesta época, foi enviada para dirigir um colégio em Manaus e viveu também em Tefé (1958-1961), onde manteve as pesquisas com madeiras fósseis paralelas à missão religiosa. Após adoecer gravemente, precisou abandonar o convento, e retornou à sua cidade natal para tratamento de saúde.

Finalmente curada e podendo retomar suas atividades, Diana ingressou como pesquisadora na Comissão Nacional de Energia Nuclear. Iniciou seus estudos de pós-graduação em 1973, no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IG-USP), sob a orientação do Dr. Antonio Carlos Rocha-Campos. Com sua formação impecável tanto como anatomista quanto como geóloga, dedicou-se, heroicamente, ao maior estudo já realizado no Brasil sobre as assembléias de madeiras fósseis do Permiano da Bacia do Paraná. Sua tese intitulada “Lignitafofloras Permianas da Bacia do Paraná, Brasil (Estados de São Paulo e Santa Catarina)” foi defendida em 1982 e obteve aprovação com louvor.

No início da década de 1980, passou a trabalhar como pesquisadora do DNPM. Em 1983, Diana foi requisitada pelo Museu Nacional (MN/UFRJ). Assim, passou a realizar pesquisa, orientar alunos e ministrar diversas disciplinas tanto no Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional (DGP-MN/UFRJ), quanto no Instituto de Geociências (IGEO/UFRJ). Em 1993, após passar por concurso público, foi nomeada como Professora Adjunta de Paleobotânica no Museu Nacional.

Além de manter suas atividades acadêmicas, em meados da década de 1990, Diana retornou à vida religiosa, como irmã leiga ligada ao Bispado do Rio de Janeiro e, onde, além das tarefas espirituais, dedicava-se ao estudo do hebraico. Foi amiga dos pobres e grande colaboradora das irmãs do Colégio Sion, no Rio de Janeiro.

Em 2003, com tristeza, pois sentia que ainda poderia colaborar muito, aposentou-se aos 70 anos e afastou-se por completo das atividades no Museu Nacional. Apenas quatro anos depois, sem qualquer enfermidade, deixou este mundo sem sofrimento, vítima de parada cardíaca, no dia 8 de maio de 2007.

Diana Mussa viveu profundamente a paixão pelo seu trabalho. Foi uma mulher determinada e, pela sua dedicação e competência, se impôs em um campo, até então, absolutamente masculino. Realizou seu sonho de criança, tornou-se Naturalista, em sentido amplo. Ao escolher a Paleobotânica, assumiu todas as dificuldades inerentes à esta área, principalmente ao se dedicar à anatomia de madeiras fósseis. Pois, ao contrário da realidade no exterior, esta linha de pesquisa praticamente inexistia no Brasil.

Desenvolveu todas as habilidades necessárias à pesquisa com maestria, desde a prospecção de fósseis em campo; em laboratório, dedicou-se à difícil preparação destes fósseis para estudo, atentando sempre para os diferentes materiais e adaptações das técnicas existentes; além disso, ao microscópio, era extremamente criteriosa em suas observações, não se contentou em fotografar amplamente os materiais, ilustrou em nanquim a anatomia dos lenhos fósseis, com a grande lucidez de interpretá-los tridimensionalmente. Seus “porquês” sempre foram muito além da mera descrição morfológica ou anatômica dos fósseis, preocupava-se com questões de desenvolvimento e evolução das plantas que estudava, assim como a reconstrução de seus ambientes de vida e de morte, pois tinha grande interesse também pela tafonomia.

Seu legado científico abrange trabalhos com fósseis paleozóicos, mesozóicos e alguns quaternários (ver Lista de Publicações). Descreveu 30 gêneros de plantas fósseis. Deixou uma importante coleção, com mais de mil lâminas de madeiras fósseis. Formou muitos alunos. Participou de inúmeras bancas, sempre colaborando com grande senso de justiça. Foi sócia fundadora da Sociedade Brasileira de Paleontologia e participava como membro da Asociación Latinoamericana de Paleobotánica y Palinología, da Botanical Society of America (Paleobotany Section), da International Organization of Paleobotany (IOP) e da Sociedade Brasileira de Geologia. Além disso, como educadora nata, sonhava com a popularização da Paleobotânica no Museu Nacional e colaborou com sua irmã, Hilda Mussa Tavares (Licenciada em Matemática e Pedagoga), na criação do Projeto Espaço Criativo, destinado ao desenvolvimento do Raciocínio Lógico e da Expressão de crianças de 5 aos 12 anos.

Com uma carreira belíssima, mesmo tendo publicado apenas em português, é reconhecida internacionalmente como a maior paleobotânica que o Brasil já teve e autoridade mundial para as floras do Devoniano. Recebeu merecidas homenagens por sua contribuição, dentre elas, a medalha LLewellyn Ivor Price da Sociedade Brasileira de Paleontologia e foi homenageada na X Reunião de Paleobotânicos e Palinólogos (2000). Além disso, inspirou o nome do gênero Mussaeoxylon Merlotti 1998, para madeira fóssil gimnospérmica do Gondwana brasileiro, e da espécie Glossopteris mussae Ricardi-Branco et al. 1999, para novas folhas fósseis do Permiano de São Paulo.

Mas Diana não merece ser lembrada apenas como grande cientista. Seu exemplo de vida também faz parte de seu legado. Sempre reconhecida como pessoa honesta e de caráter firme, outras características amplamente citadas são sua imensa humildade, sua delicadeza e generosidade. Virtudes, por vezes, raras na Academia. É uma mulher brasileira, digna de admiração e respeito, que, nos limites de sua humanidade, atuou sempre de forma completa, com a maior dedicação possível.

Fontes e Autoria do verbete

Ester de Camargo Fonseca Moraes (1920 -2002)
Farmacêutica

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Nascida na cidade de Paraibuna, no Estado de São Paulo, em 8 de dezembro de 1920, Ester de Camargo Fonseca Moraes, pioneira na implantação da Toxicologia no Brasil, torna-se referência no ensino da Toxicologia no país, atuando por 44 anos na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF/USP).

Iniciou sua carreira docente logo após a conclusão do Curso de Farmácia, na então denominada Faculdade de Farmácia e Odontologia da Universidade de São Paulo, com apenas 22 anos de idade (junho de 1943), ao ser indicada como Assistente Extranumerária (voluntária) junto à Cadeira de Química Toxicológica e Bromatológica, atendendo ao convite do catedrático da época, professor doutor Linneu Prestes, quando ainda aluna do 3º ano. Foi admitida no ano seguinte, participando como assistente do ensino prático (curso diurno) até 1957 quando, então, passou a ser encarregada do curso teórico e prático (diurno) da parte de Química Toxicológica. Em maio de 1951, inscreveu-se para concurso de Livre Docência da 9ª Cadeira do Curso de Farmácia da Faculdade de Farmácia e Odontologia: Química Toxicológica e Bromatológica, conquistando ao mesmo tempo o título de Doutor e Docente Livre, segundo o Regulamento da Universidade de São Paulo em vigor na época. Com o desdobramento dessa Cadeira em Cadeira de Bromatologia e Disciplina Autônoma de Toxicologia, assumiu a responsabilidade desta disciplina (curso diurno e noturno) após ter se submetido ao concurso de Títulos realizado em abril de 1966. Cabe enfatizar que foi a única candidata inscrita e considerada altamente qualificada para o cargo pretendido por todos os membros da Comissão Julgadora.

Concomitantemente ao seu ingresso no magistério superior, iniciou sua atividade profissional como química auxiliar na humilde instalação do Serviço Químico do Jockey Club de São Paulo em 1944, também acedendo à indicação do professor Linneu Prestes, então chefe do referido Serviço. Sua ascensão na carreira foi notável, culminando como químico-farmacêutico chefe nas magníficas instalações do Serviço de Controle e Pesquisas Antidopagem em 1958, onde permaneceu até 1968. Durante esse período, implantou um laboratório de controle da dopagem, que se tornou o primeiro centro de pesquisa toxicológica em nosso país. O laboratório era bem aparelhado, contava com excelente pessoal técnico, ótima biblioteca e mantinha intercâmbio científico permanente com entidades congêneres e institutos universitários, no sentido de estar o mais atualizado possível dentro das exigências da análise toxicológica. Foi procurado como local de estágio para mais de duas dezenas de profissionais vindos de diversos estados do Brasil e até mesmo de alguns países sulamericanos, como Argentina, Colômbia e Guatemala, em busca de treino e especialização, além de muitos trabalhos de pesquisa também terem sido ali realizados. Em 1959, Ester de Camargo Moraes conquistou, mediante prova de títulos e prática, a admissão no quadro de químicos do turfe da AORC (Association of Official Racing Chemists), entidade de caráter científico, de âmbito internacional, cuja finalidade é coordenar os trabalhos de pesquisa referentes ao controle da dopagem uma vez que, sendo de caráter confidencial, não podem ser publicados pelos meios convencionais. De 1958 a 1965, foram analisadas pelo Serviço mais de 16.000 amostras, computadas as análises de rotina e as de doping experimental.

O ano de 1966 foi marcante em sua trajetória, pois foi o ano que assumiu a responsabilidade da Disciplina Autônoma de Toxicologia ao mesmo tempo em que ocorreu a transferência da Faculdade de Farmácia para o campus da Cidade Universitária. A instalação real e efetiva da disciplina recém-criada, desprovida de qualquer infraestrutura, era crucial e estratégica para o Brasil. Para sustentar compromisso de tamanha envergadura, sentiu a necessidade de optar pelo regime de dedicação integral ao ensino e à pesquisa (RDIDP) na USP em 1968, renunciando ao seu cargo já consolidado de chefe em uma prestigiada divisão, para transferir para a Faculdade de Farmácia, êxito semelhante ao alcançado em seus 24 anos de trabalho no Jockey Club, isto é, a formação de uma verdadeira escola de toxicologia. Todo seu empenho foi recompensado: em fins de 1969, a disciplina de Toxicologia já se equiparava didaticamente a qualquer uma das antigas disciplinas da Faculdade. Portanto, Ester de Camargo Moraes foi pioneira na implantação da disciplina de Toxicologia como entidade autônoma e separada de outras correlatas, no curso de Farmácia da Universidade de São Paulo. Posteriormente, foi instituído também nas demais Faculdades de Farmácia, públicas ou privadas, que atualmente ministram esta disciplina.

Em 1970, prestou concurso para Professor Adjunto de Toxicologia, disciplina que, por força da reforma universitária, passou a integrar o recém-criado Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas. Em 1972 obteve o título de Professor Titular de Toxicologia, ficando responsável pelas disciplinas Toxicologia I e Toxicologia II (período integral e noturno), desdobradas da disciplina de Toxicologia.

Também, em decorrência da reforma universitária, foi integrado ao Departamento, o antigo Laboratório Clínico da Faculdade de Farmácia e Bioquímica. Nesta ocasião, Ester de Camargo Moraes propôs a criação do Laboratório Toxicológico, paralelo ao Laboratório Clínico, constituindo o Laboratório Clínico e Toxicológico do Departamento. Assim, em 1971, foi implantado o Laboratório de Análises Toxicológicas (LAT), criado com o objetivo amplo de não ser apenas um prestador de serviços, mas principalmente um centro de formação e treinamento. Sua liderança igualmente se fez presente no desenvolvimento e implantação de técnicas analíticas associadas ao diagnóstico toxicológico, em um trabalho de associação entre ensino, pesquisa e extensão nas diversas áreas da Toxicologia. Sob sua chefia, o LAT foi pioneiro no Brasil na realização de análises de urina para o controle da dopagem em atletas, tendo início em 1974, mediante compromisso firmado em perante a Federação Paulista de Futebol. Também em alguns eventos de caráter internacional, tais como “Campeonato Mundial de Voleibol Juvenil” (1977), “Campeonato Panamericano Junior de Ciclismo” (1980), “Campeonato Sulamericano de Voleibol Feminino” (1981), “Campeonato Mundial Juvenil de Esgrima” (1987), “Volta Ciclística Internacional do Brasil” (1987 e 1988), “Corrida Internacional São Silvestre” (1990 e 1991), coube ao LAT a responsabilidade do controle da dopagem.

Ester de Camargo Moraes consolidou sua liderança na Toxicologia ao criar o primeiro curso de pós-graduação stricto sensu na área no país – Análises Toxicológicas (Mestrado), em 1972 e Toxicologia (Doutorado), em 1978. Formou grande número de mestres e doutores que foram responsáveis pela implementação da Toxicologia em todo o país, militando em instituições de Ensino Superior, órgãos governamentais, institutos de pesquisa, entre outros, e que procuram seguir seu exemplo de honestidade científica e preocupação com o ensino de qualidade.

Seu reconhecimento também foi internacional, ao ser convidada para participar, em 1984, em Paris, da cerimônia solene do Cent Cinquantième Anniversaire de la Création de la Chaire de Toxicologie de la Faculté de Pharmacie de Paris et du Jubilé Scientifique du Professeur René Truhaut.

Em 1987, aposentou-se do cargo de professor de Toxicologia após 44 anos de atividade plena e ininterrupta, continuando a exercer voluntariamente por mais 5 anos a função de orientadora de mestrandos e doutorandos na Faculdade.

Em 2002, recebeu do Conselho Federal de Farmácia, a “Comenda de Mérito Farmacêutico”, outorgada a membros representativos da entidade, pelos relevantes serviços prestados à profissão farmacêutica e à Farmácia Brasileira. Neste mesmo ano, também foi homenageada pelo papel importante e decisivo para a implantação e consolidação da Pós-Graduação da FCF/USP, no Encontro Nacional da Pós-Graduação em Farmácia ¿ 30 anos de experiência em Análises Clínicas e Toxicológicas.

Em 2011, a Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox) instituiu a medalha Professora Ester de Camargo Fonseca Moraes com o objetivo de homenagear profissionais que tenham prestado serviços ou contribuído consideravelmente para o desenvolvimento da Toxicologia no Brasil. O nome da Professora Ester de Camargo foi escolhido como reconhecimento à sua relevante participação na consolidação da Toxicologia como ciência autônoma no país.

Em 2014, os membros do 10° Encontro Latinoamericano do TIAFT (The International Association of Forensic Toxicologists) também selecionaram o nome da Professora Ester para intitular o certificado de premiação de um dos melhores trabalhos orais apresentado durante o referido evento.

Ester de Camargo Fonseca Moraes foi uma incansável batalhadora da implantação e consolidação da Toxicologia como ciência e matéria de ensino no Brasil e seu nome sempre será reconhecido por todos que seguiram os caminhos da Toxicologia.

Autoria do verbete

Gioconda Mussolini (1913-1969)
Antropóloga

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Gioconda Mussolini (nascida em São Paulo em 1913) foi a primeira mulher, no Brasil, a fazer da Antropologia Social a sua profissão, tendo sido docente e pesquisadora na Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo, desde 1935 até o dia da sua morte, em maio de 1969.

Ela foi a terceira das sete filhas de Umberto Mussolini (nascido em Veneza em 1886 e emigrado para o Brasil em 1888) e de Adalgisa Vieiga (nascida em 1889, filha de pai português e mãe brasileira). A família paterna foi se estabelecendo, aos poucos, nos bairros do Bom Retiro, da Luz e dos Campos Elísios, desenvolvendo atividades comerciais e industriais no setor alimentício. Gioconda formou-se como professora primária, em 1931, na Escola Normal Padre Anchieta. Logo no começo de 1933, ingressou oficialmente no quadro do ensino público paulista, nomeada para o Grupo Escolar de Pariquera-Assu, então distrito rural de Jacupiranga, no litoral sul do estado. Mas a permanência na região do baixo Vale do Ribeira será logo interrompida pela admissão, ainda em 1933, no Curso de Aperfeiçoamento de Professores Primários que funcionava no Instituto Pedagógico “Caetano de Campos”, na Praça da República, e que, como a própria Gioconda escreveria num Currículo de 1965, “equivalia aos dois primeiros anos do Curso de Pedagogia da Faculdade de Filosofia” da USP.

É este o verdadeiro ponto de virada na carreira e na trajetória de Gioconda Mussolini, que, a partir de então, seria aluna, entre outros, de Fernando de Azevedo, Almeida Jr., Noemy da Silveira Rudolfer. Além desses, Gioconda entra em contato com outros docentes, alguns dos quais pouco mais velhos que ela: alguns estarão entre os seus colegas na FFCL, a partir de 1935, como Anita de Castilho, Marcondes Cabral e Zenith Mendes da Silveira. Em outras palavras, em 1933, iniciam os estudos superiores de Gioconda Mussolini, na primeira turma desse novo Instituto de Educação. É a primeira e única da frátria a dar esse passo, dado contemporaneamente aos primeiros passos do próprio ensino superior paulista, se atentarmos para o fato de que, até este ano, só existiam as Escolas “profissionais”: Direito, Medicina e a Politécnica. A Escola Livre de Sociologia e Política também abria as suas atividades em 1933, e a USP, ao criar a Faculdade de Filosofia e ao reuni-la àquelas escolas e a este Instituto de Educação, só surgiria em 1934.

Embora não tenhamos maiores informações sobre as suas atividades e a sua rotina, basta o nome e a estrutura de um dos laboratórios do IE para compreendermos a sua importância na formação de Gioconda: o Laboratório de Pesquisas Sociais e Educacionais contava com um Centro de Documentação Etnográfica e Social e com um Museu de Etnografia. Nesse biênio na “Praça”, então, Gioconda Mussolini teve acesso à “degustação” de um variado cardápio de novos sabores intelectuais, que lhe aguçaram um apetite a ser saciado, já a partir do ano seguinte, no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia. Afinal, para uma moça em volta dos seus vinte anos de idade, nascida e criada no Bom Retiro, devem ter sido extraordinárias as experiências proporcionadas por um grupo de educadores também num momento decisivo e especial das suas atuações institucionais. Por sua vez, o lugar desse conjunto de práticas é também um lugar múltiplo: o Caetano de Campos tinha posição e função centrais nesse quadrante da educação pública paulista. Nela convergiam elementos de um campo que me parece estar, ao mesmo tempo, em formação e em ponto de mutação, com a presença e a participação de médicos, higienistas, pedagogos, juristas, psicólogos, estatísticos, sociólogos.

Em 1935, Gioconda entra na então denominada sub-Seção de Ciências Sociais e Políticas da recém criada Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da USP, como integrante da segunda turma de ingressantes naquela instituição e como “professora primária comissionada”[1], ou seja, dispensada, com vencimentos, das suas atividades docentes. Pertence àquele “grupo de jovens, animado de grande ardor para o trabalho, conhecendo perfeitamente as suas possibilidades, mas sabendo também que, antes de mais nada, são professores e que por esta razão foram enviados à Faculdade”, na definição de um dos seus mais destacados professores, o geógrafo francês Pierre Monbeig[2].

Mulher, e com sobrenome imigrante[3], Gioconda Mussolini encaixa-se bem no perfil dos alunos da FFCL a partir do seu segundo ano de funcionamento, um grupo social muito diferente do preconizado pelos seus mentores, e também bem distinto do perfil daqueles que se encaminhavam para as antigas faculdades profissionais já existentes[4]: os filhos da elite paulista.

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Maria Judith Zuzarte Cortesão (1914-2007)
Educadora Ambiental

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Judith, nascida Maria Judith Zuzarte Cortesão, gostava de ser chamada simplesmente pelo seu segundo nome, prescindindo, no tratamento pessoal, dos muitos títulos que obteve. Foi uma mulher única, por sua personalidade irrequieta, criativa, inteligente, múltipla e generosa e por sua trajetória de vida, que é aqui contada brevemente, pela visão de uma aluna e discípula sua. Nasceu em 31 de dezembro de 1914, na cidade do Porto, Portugal e veio a falecer em 25 de setembro de 2007, em companhia de alguns de seus oito filhos, em Genebra. Filha do historiador Jaime Zuzarte Cortesão, aos 17 anos deixa Portugal, com a família, em razão de perseguição política, pelo governo ditatorial daquele país. Exilam-se em vários países europeus até chegarem ao Brasil em 1940, quando Jaime vem pesquisar a história da formação territorial do país. Nesse período, convivem com importantes nomes da intelectualidade brasileira, como Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Sérgio Buarque de Holanda, Assis Chateaubriand e Cecília Meireles, o que viria a influenciar a formação de Judith.

Judith reside ainda no Peru e no Uruguai. No Brasil, casa-se com Agostinho da Silva, também português, que abandonara a terra natal também por motivos políticos. Eles têm oito filhos e residem sucessivamente em Itatiaia, RJ, em Santa Catarina e no Uruguai, onde já separada do marido, durante o regime militar, no início dos anos 1970, Judith é presa e torturada, sob a acusação de ligação com os guerrilheiros tupamaros.

Na década de 1980, estabelece-se em Brasília, mudando-se nos anos 1990 para a cidade do Rio Grande, Rio Grande do Sul, em cuja Universidade Federal (FURG), foi professora de Educação Ambiental Marinha no primeiro Programa de Pós-graduação[1] em Educação Ambiental brasileiro. Judith dedicou-se academicamente a diversas áreas do conhecimento durante sua longa vida, dentre as quais Neuroendocrinologia, Matemática, Genética, Reprodução Humana, Climatologia, Antropologia, Espeleologia e Ecologia, além de Letras. Ministrou aulas em diversas universidades, entre elas, Université Paris-Sorbonne, onde também doutorou-se em Letras, Université de Nanterre, Université de Caen na França; Open University, Grã-Bretanha; Universidades portuguesas de Lisboa, de Aveiro, de Trás-os Montes, de Évora e do Porto; e na Universidade Federal do Rio Grande, Brasil.

Cidadã de ideias mais do que de países, como a definiu o intelectual português Manuel António Pina, ela escreveu dezesseis livros, entre eles “Pantanal Pantanais” e “Juréia, a Luta pela Vida”. Participou da elaboração de seis filmes, tais como “Taim a Reserva Gaúcha”, de Lyonel Lucini, “EMAS: Parque Nacional do Cerrado”, “O Último Estuário” e “O Mundo Natural do Cerrado”. Foi uma das criadoras do programa Globo Ecologia e da Ong ARCA, e consultora das Ongs SOS Mata Atlântica e Instituto Acqua. Além desse ativismo ambiental, ela idealizou, como médica, o Centro de Informação e Formação de Médicos e Cirurgiões de Doenças do Aparelho Locomotor de Brasília, no Hospital Sarah Kubitschek, e representou o Brasil em diversas comissões, que serão listadas à parte, senão, como ela diria, ficaria esta lista, assim em meio ao texto, uma coisa antiestética. Aliás, arte e estética faziam parte dos seus conhecimentos e compunham as suas metodologias de ensino, orientando os fluxos de pensamento individual e coletivo.

Atavicamente ligada ao mar, (era velejadora e uma grande marinheira, falava aos seus alunos de vivências na Ilha da Madeira), participa diretamente na criação do Museu Antártico e presta consultoria ao Museu Oceanográfico Professor Eliezer de Carvalho Rios e ao Ecomuseu da Ilha da Pólvora, todos em Rio Grande. Na década de 1990, desenvolve diversas pesquisas dentre as quais se destacam as realizadas na Estação Ecológica do Taim, o Projeto Asas Polares, o Projeto Mar de Dentro, que objetiva despoluir e preservar as águas da Laguna dos Patos e seus ecossistemas. Foi inspiradora do Projeto Museu do Pão, ativo, hoje na cidade gaúcha de Ilópolis. Propõe o Projeto Alfabetização de Mulheres Pescadoras, tendo composto o livreto de alfabetização de adultos: Viva o Mar; Viva o Povo que Vive do Mar. É autora da poesia / oração Pater Noster ecológico, encontrada na obra de Moraes, 2014, escrita como presente ao amigo, oceanólogo e diretor dos citados museus náuticos Lauro Barcellos.

Para Judith, a necessidade e a vontade de ação, assim como a militância e o espírito aventureiro nunca se desligaram de uma insaciável sede de conhecimento, acompanhada do respeito absoluto a todo e qualquer partner na ação de conhecer. Á cada ação, Judith imprimia um otimismo que ensejava a persistência para planejar e executar tarefas tão diversas, quanto a sua própria formação. Ações sempre perpassadas pelo olhar profundamente humanista. Dotada de uma visão e uma postura sempre à frente do seu tempo, compreendeu e difundiu a necessidade de preservação ecológica antes mesmo de o ambientalismo se tornar um movimento organizado, já desde os anos 1980.

Participa das duas primeiras expedições brasileiras à Antártida, em 1982 e 1983. Durante as viagens, Judith coordena 40 projetos de pesquisa chancelados pela Secretaria de Meio Ambiente ¿ SEMA, além da expedição ao arquipélago de São Pedro e São Paulo, anos depois. Em 2002, já com a saúde bastante debilitada, planeja uma 2ª expedição (que não chegou a concretizar-se) a este arquipélago. Disso resta-nos talvez a última lição dessa grande dama da Ciência, do Conhecimento, da Ecologia e do Mar: não parar a espera da morte; antes deixar que ela nos alcance em meio a planos e projetos. É um modo de seguir vivendo neles.

Preservação, para ela, significa pensar a integração homem ¿ natureza, tendo em vista as necessidades das comunidades humanas, sendo dever do pesquisador e do intelectual trabalhar para melhorar a qualidade de vida das populações, integradas ao ambiente natural, principalmente num país tão desigual como o Brasil, na perspectiva da própria comunidade, mas pensando-a globalmente. Ecologia na sua visão é um conhecimento construído, multifacetado, envolvendo relações dinâmicas, que devem ser entendidas á luz do passado, e contextualizadas no presente, tendo em vista o futuro. Pensava assim, integradamente, tanto o tempo, como os espaços. Falava em microcosmo, mesocosmo e macrocosmo, relacionando-os, sendo o mesocosmo o espaço onde nos movemos, onde devem coexistir animais, homens, plantas e todos os seres vivos; natureza e sociedade; desenvolvimento e conservação, numa grande e complexa teia da vida. Nada está separado e tudo se une, mas não mediante uma simetria simplória; mas numa parassimetria, ou seja, uma simetria além das primeiras aparências. Ela procurava em seus estudos essa parassimetria.

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Rosa Virgínia Barreto de Mattos Oliveira e Silva (1940-2012)
Linguista

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A linguista histórica brasileira Rosa Virgínia Barreto de Mattos Oliveira e Silva nasceu em 27 de julho de 1940 em Salvador Bahia e faleceu na mesma cidade no dia 16 de julho de 2012. Sempre que indagada sobre a sua opção pelos estudos históricos do português, dizia que, “ainda na sua graduação logo no início dos anos sessenta do século passado, foi mordida, definitivamente, pela história da língua”. De lá até muito recentemente, essa mordida das veredas históricas do português em Rosa Virgínia, não deixou de produzir os melhores frutos para a linguística brasileira. Descrever minuciosamente a história do português quer seja brasileiro ou europeu, como uma arqueóloga da língua, escavando os meandros históricos pelos quais essa língua percorre(u) desde a Idade Média até bem pouco tempo atrás, sempre esteve no horizonte teórico-metodológico e acadêmico da linguista brasileira Rosa Virgínia Barreto de Mattos Oliveira e Silva.

Atenta não só com as questões da ciência linguística, mas com os problemas sociais, a linguista sempre se preocupou também em refletir sobre as contribuições da linguística histórica para o ensino de português na escola. Defendia com veemência que a pesquisa acadêmica não poderia estar distante da sala de aula de português. Em um texto ainda inédito no qual relata o seu início de carreira a uma amiga, Rosa Virgínia disse: “Olha, muita gente está alfabetizando pelo Brasil e poucos se dedicam ao passado da língua portuguesa. No meu caso, tanto posso alfabetizar, como pesquisar o português do período arcaico”. Essa fala deixa bastante claro que pesquisa em linguística diacrônica e ensino do português sempre estiveram na densa e produtiva agenda trabalho de Rosa Virgínia.

A professora Rosa Virgínia doutorou-se em linguística pela Universidade de São Paulo em 1971. Embora sua tese esteja inscrita no domínio da filologia, Rosa Virgínia desenvolveu pesquisas que não se deixam se circunscrever nesse domínio apenas. Desde muito cedo, estabeleceu um rico diálogo com outras áreas da linguística como a Sociolinguística e a Dialetologia. Foi Professora Titular e Emérita da Universidade Federal da Bahia ¿ UFBA e Pesquisadora 1 A do CNPq. Foi fundadora do Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da UFBA. Publicou mais de 60 artigos em renomadas revistas brasileiras e estrangeiras, 18 livros e 40 capítulos de livros. Vários desses livros, capítulos e artigos foram publicados em Portugal e são consultas obrigatórias aos pesquisadores da área.

Dentre os inúmeros trabalhos publicados que merecem destaque estão, por exemplo, a publicação, em co-autoria com Nelson Rossi e Dinah Calou, do Atlas Prévios do Falares Baianos APFB (1963): primeiro atlas linguístico publicado no Brasil e referência ainda atual para estudos na área de dialetologia e sociolinguística. O livro O português arcaico: fonologia, morfologia e sintaxe, publicado em 2006, é outra obra da autora que merece destaque. Trata-se também de uma obra de referência obrigatória para os estudiosos do português (brasileiro e europeu). Orientou 23 dissertações de mestrado, 12 teses de doutorado e um grande número de trabalhos de iniciação científica. Muitos de seus ex-orientados são linguistas internacionalmente (re)conhecidos.

Desde 1990 trabalhou com muito afinco para a consolidação Programa para a História da Língua Portuguesa (PROHPOR) – http://www.prohpor.org/. Projeto que reúne pesquisadores das mais variadas tendências linguísticas e tem como objetivo central o estudo da constituição histórica da língua portuguesa, desde o período arcaico, infletindo, a partir do século XVI, para a investigação do português brasileiro. Ademais, o Programa para a História da Língua Portuguesa (PROHPOR) serviu de inspiração para a criação de diversos outros projetos similares no âmbito do português histórico brasileiro. Rosa Virgínia contribuiu decisivamente para a implementação e consolidação dos estudos diacrônicos do português na linguística brasileira.

Sua partida inesperada no inverno de 2012, precisamente em 16 de julho, na capital baiana, faltando pouco mais de uma dezena de dias para o seu septuagésimo segundo aniversário, deixou a linguística brasileira, sobretudo, no âmbito dos estudos diacrônicos, além de mais triste, um pouco como uma história “à beira da falésia”[1], ou seja, entre a certeza, a inquietude e elãs muito otimistas.

Fontes e autoria do verbete

Sonia Gumes Andrade (1928 – )
Médica patologista

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Sonia Gumes Andrade nasceu no município baiano de Caetité em 1928, em uma família letrada, com grande influência cultural na cidade. A mãe, Marieta Gumes era professora, filha de Maria Teodolina das Neves Lobão, primeira professora de Caetité a lecionar para uma classe de homens, entre os quais, encontrava-se Anísio Teixeira. O pai, Huol Gumes, jornalista e funcionário público, era filho de João Antônio dos Santos Gumes, professor, escritor, e jornalista, que fundou em 1897, “A Penna”, primeiro jornal do alto sertão baiano, que circulou com regularidade, com alguns períodos de interrupção, até a sua morte em 1930, vindo a ser extinto em 1943.

Filha mais velha de três irmãs (a primogênita falecera aos dois anos), Sonia se mudou para Salvador em 1941, estimulada pela avó Maria Teodolina, com quem foi morar, para prosseguir os estudos na capital. Entre 1941 e 1947, ela fez os cursos ginasial e científico no Ginásio da Bahia (atual Colégio Estadual da Bahia), e, em 1948, também motivada pela avó, ingressou na Faculdade de Medicina ¿ incorporada à Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1965 ¿, onde se diplomou em 1953.

Nesse mesmo ano, a jovem médica casou com Zilton Andrade, que conhecera durante o curso médico, e que àquela altura retornava da residência médica em patologia na Tulane Universty School of Medicine, e se tornou professor da Faculdade de Medicina da Bahia. Juntos eles tiveram seis filhos, e são casados até hoje.

Desde muito cedo em sua formação médica, Sonia se aproximou da patologia, realizando atividades discentes no Hospital das Clínicas como estagiária (1950-1951) e interna por concurso (1952-1953) na 2ª Cadeira de Clínica Médica. Ao mesmo tempo, foi atraída para o Instituto de Saúde Pública, incorporado à Fundação Gonçalo Moniz, fundada em 1950 pelo governador Otávio Mangabeira. O Instituto funcionaria simultaneamente como um laboratório central de saúde pública, e um laboratório de pesquisas biológicas, instituído este por Otávio Mangabeira Filho, que fora pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro.

Ali, Sonia, junto com Zilton ¿ que já integrava como patologista o Laboratório de Anatomia Patológica criado sob a supervisão do veterinário Paulo Dacorso Filho ¿, teve a oportunidade de frequentar, entre 1951 e 1952, o Curso de Aperfeiçoamento Técnico. Ministrado por renomados professores e pesquisadores do Rio de Janeiro e São Paulo, o Curso tinha como propósito o aprendizado e o treinamento prático de técnicas básicas de pesquisa em diversos campos: bacteriologia, micologia, helmintologia, entomologia, protozoologia, histologia e anatomia patológica.

Essa experiência levaria Sonia a se aproximar da pesquisa experimental, inicialmente como estagiária e assistente voluntária (sem remuneração), no Laboratório de Patologia, chefiado por Zilton Andrade, e em 1965, como patologista contratada, com bolsa do então Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq). Nessa função permaneceu até o desaparecimento da Fundação Gonçalo Moniz em 1973, quando o seu próprio Laboratório de Chagas Experimental foi transferido para o Anexo I da Faculdade de Medicina da Bahia. Em 1980, ela ¿ junto com outros pesquisadores da Faculdade de Medicina ¿ retornaria às antigas instalações da Fundação Gonçalo Moniz, onde passou a funcionar o Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz, fruto de um convenio celebrado, em 1979, entre a Fundação Oswaldo Cruz, a Universidade Federal da Bahia, e a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia, cujo primeiro diretor foi Zilton Andrade.

Embora tenha adquirido uma ampla formação em patologia das doenças parasitárias ¿ situando-a na linhagem científica da medicina tropical brasileira, cujo berço foi a Escola Tropicalista Baiana ¿, Sonia Andrade se notabilizou pelos estudos em doença de Chagas experimental. Seu interesse científico nesse campo se manifestou desde o início de sua integração ao Laboratório de Patologia, onde produziu, em 1955, os primeiros trabalhos, em co-autoria com Zilton: “A patologia da doença de Chagas (forma crônica cardíaca)” e “A patogenia da miocardite crônica chagásica (a importância das lesões isquêmicas)”, publicados, respectivamente, no Boletim da Fundação Gonçalo Moniz, e Arquivos Brasileiros de Medicina.

Nos anos 60, seus estudos se consolidariam em torno das diferentes cepas do Trypanosoma cruzi, resultando em trabalho original, publicado na Gazeta Médica da Bahia em 1970, em que propõe a classificação das cepas conforme os caracteres biológicos e histopatológicos do protozoário em tipos biológicos ou biodemas (Tipos I, II e III). Nas décadas seguintes, a pesquisa evoluiria no campo da patologia experimental e da imunopatologia da doença de chagas em diferentes modelos experimentais, ampliando o foco de atuação do Laboratório, transformado, em 2003, em Laboratório de Chagas Experimental, Autoimunidade e Imunologia Celular (LACEI). Desde então, reúne um grupo de pesquisadores e alunos de iniciação científica, mestrado e doutorado, dedicados ao desenvolvimento de projetos sobre processos patológicos e a resposta aos quimioterápicos, além de desenvolver investigações sobre a regulação do sistema imune em diferentes condições, como nas infecções e doenças autoimunes, visando o tratamento com terapias celulares em humanos com diferentes tipos de patologia.

Após uma longa experiência como pesquisadora, com estágios de pesquisa em centros e universidades estrangeiras, como Case Western Reserve University eCornel University Medical College, National Institute of Health, Sonia Andrade realizou o curso de doutorado em patologia humana na UFBA, entre 1984 e 1986, dirigindo-se em seguida para um estágio pós-doutoral no Instituto Pasteur de Lyon, onde permaneceu entre 1986 e 1987.

Paralelamente à pesquisa, Sonia se dedicou à docência desde que se formou, exercendo essa atividade na cadeira de Anatomia Patológica e Medicina Legal da Faculdade de Medicina. Foi efetivada por concurso público como professora assistente em 1973. Nesse mesmo ano, foi fundado por Zilton Andrade o curso de pós-graduação em patologia humana (sediado no Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz/Fiocruz em 1980), inicialmente em nível de mestrado, e, em 1989, em nível de doutorado, ao qual Sonia se integrou como docente, assumindo a coordenação entre 1975 e 1995.

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