Ainda hoje, mulheres que trabalham como diplomatas enfrentam dificuldades absurdas no ambiente de trabalho – como sexismo e assédio. A primeira diplomata do Brasil também não teve facilidade para conseguir seguir a carreira de seus sonhos.


Maria José de Castro Rebelo Mendes nasceu em 1891 em Salvador, BA. Se formou e aprendeu a falar fluentemente alemão, francês, inglês e italiano. Seu pai morreu em meados da década de 1910, e deixou a família com problemas financeiros. Maria José se mudou para o Rio de Janeiro e para dar aulas particulares.

Um primo lhe avisou que o Itamaraty estava com concurso aberto, e ela decidiu se inscrever para a vaga de 3ª escriturária. Estudou datilografia, contabilidade e economia na Escola de Comércio, e estudou Direito por conta própria para tentar a vaga. Mas, mesmo demonstrando empenho, o Maria José foi recusada pelo Ministério de Relações Exteriores já na inscrição.

MARIA JOSE DE CASTRO RABELO

O caso ganhou repercussão no Brasil quando a família de Maria José procurou Rui Barbosa para que ele examinasse atenciosamente e juridicamente a recusa. Rui Barbosa ficou tocado com a história da jovem, e declarou ser inconstitucional a decisão do Ministério.

Pressionado, o ministro Nilo Peçanha acabou voltando atrás e deferindo a solicitação de inscrição de Maria José. Mesmo assim, continuou tratando o caso dela com discurso de machismo: “Não sei se as mulheres desempenhariam com proveito a diplomacia, vide tantos atributos de discrição e competência que são exigidos(…), o que não posso é restringir ou negar o seu direito… Melhor seria, certamente, para o seu prestígio que continuassem a direção do lar, tais são os desenganos da vida pública, mas não há como recusar sua aspiração, desde que fiquem provadas suas aptidões”.

Na imprensa, Maria José era tanto apoiada quanto criticada. Ela teve até manifestações organizadas a seu favor. A “Revista Feminina” foi uma das publicações que se pronunciou em sua defesa:

“Um bravo a D. Marietta Mendes [apelido de Maria José]… um bravo a todas as mulheres que, concisas de seu papel que deverão representar neste século, sabem desprezar a ironia sempre tola e muitas vezes idiota dos que procuram fazer espírito com o que de mais alto e mais sagrado há no seio de cada povo: o coração da mulher, o relicário de todos os heroísmos e de todas as abnegações.”

Quando Maria José fez as provas para o concurso, em 1918, contando com a prova oral em frente a um auditório lotado, passou em primeiro lugar. Maria assumiu o cargo no Itamaraty e trabalhou normalmente, sem chamar mais atenção por ser mulher. Em 1922, casou-se com outro diplomata: Henrique Pinheiro de Vasconcelos, que fez parte da banca para qual Maria José teve que se apresentar para passar no concurso.

Em 1934, Maria José solicitou sua aposentadoria, porque Henrique havia sido nomeado para o cargo de conselheiro da embaixada brasileira na Bélgica. Na época, por determinações administrativas, era proibido que uma mulher assumisse um cargo na mesma representação que seu marido. Maria José faleceu em 1936, aos 45 anos, no Rio de Janeiro.

Em 1938, no entanto, um retrocesso no Itamaraty: o chanceler Oswaldo Aranha declarou como proibida a entrada de mulheres para cargos no Ministério das Relações Exteriores. O quadro só mudou em 1953, quando Sandra Maria Cordeiro de Melo teve que entrar com uma liminar na justiça contra esta decisão para poder prestar o concurso para o instituto Rio Branco. Esta medida tomada por ela fez com que finalmente, em 1954, o Congresso Nacional aprovasse uma lei que garante a liberdade de acesso das mulheres às carreiras na diplomacia brasileira. A primeira embaixadora do Brasil foi Odette de Carvalho e Souza, de chapéu na foto abaixo, na década de 1950. Curiosamente, ainda hoje, a página bibliográfica de Odette na Wikipédia não traz conteúdo em português, somente em alemão.

odete

Atualmente, existe um Comitê Gestor de Gênero e Raça (CGGR) no Ministério das Relações Exteriores. Criado em 2014, ele tem como objetivo reforçar o comprometimento com a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres de todas as etnias.

fernanda lopes

Esse texto foi uma contribuição de Fernanda Lopes. Quer contribuir com textos e temas? Envie para: contato@asminanahistoria.com.br

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