Eles têm mãe. E elas têm nome.

Olinda Bolsonaro
Dona Olinda Bolsonaro

Dona Olinda Bonturi Bolsonaro tem 89 anos. É comunicativa, amável e não se negou a dar uma entrevista sobre seu filho, o deputado Jair Bolsonaro. Falou com a Revista CRESCER sobre quem é o terceiro dos seis filhos que criou, segundo ela, com muito amor e respeito. Dona Olinda viveu com a família na cidade de Eldorado, a 249 km de São Paulo. Seu marido, Geraldo Bolsonaro, atuava como dentista em diversas cidades, mesmo sem ter estudado odontologia. Geraldo foi descrito por um dos filhos como “boêmio”, dado à “bebida” e um tanto ausente, “uma pessoa dura”. Jair Bolsonaro e o pai não se davam bem.

O que é interessante notar no discurso por vezes emocionado de Dona Olinda é que o filho que ela educou sem nunca bater, por acreditar no poder do diálogo e da compreensão, hoje prega que para um filho meio “gayzinho”, um “bom coro” muda o comportamento. O filho que ela garantiu ser “humilde e compreensivo” na infância, hoje nomeia os refugiados como “escória”. O filho que ela disse ser “digno” na infância declarou-se sobre o estupro como medida corretiva, empurrou uma deputada e a chamou de vagabunda. Dona Olinda finaliza o discurso dizendo: “Mas é boa pessoa”.

Dona Lúcia Maria Feliciano foi empregada doméstica aos 20 anos de idade. Mãe solteira de um filho pequeno, numa época em que se atribulava de trabalho para poder sustentá-lo, afirmou que nos anos 1970 realizava abortos em jovens mulheres, que tinham de 15 a 20 dias de gestação. E ainda desmentiu o filho, que afirmou ver “fetos sendo arrancados” do ventre de suas mães desde pequeno: quando Dona Lúcia realizava os procedimentos, sem qualquer ambiente adequado e condições médicas, Marco Feliciano era recém nascido. Antes mesmo do único filho nascer, Dona Lúcia realizou um aborto aos 17 anos de idade.

Lucia Maria Feliciano
Marco Feliciano e a mãe, Dona Lúcia Maria

Sobre os abortos que realizou, diz se sentir arrependida e pedir perdão a Deus. E deixou de dar pronunciamentos desde que colocou por terra a veemência do filho sobre fetos arrancados de úteros. Mais objetiva e menos sentimental do que Dona Olinda ao falar do filho na política, diz simplesmente: “isso é tudo coisa da cabeça dele. Se for pra ele ficar lá, que fique. Se for pra sair, que saia”.

Então, respondendo à complexa e ao mesmo tempo tão inócua pergunta: sim, eles têm mãe.

Pergunta inócua porque obviamente todo ser tem um progenitor. Seja gerado ou reproduzido, há um antecessor. A pergunta é complexa, no entanto, porque não se limita aos fatores biológicos: quando nos questionamos se essas pessoas têm mãe – e “essas pessoas” não são restritamente Jair Bolsonaro e Marco Feliciano, mas todo um coletivo de gente que professa a desigualdade e a violência contra a mulher – na verdade estamos nos questionando se respeitam suas mães. Mais do que como mantenedoras do lar, mais do que como geradoras da vida, mas como mulheres. Estamos questionando se respeitam todas as madrugadas em que elas estiveram de pé, se preparando para sair e buscar o sustento diário de seus filhos, e se respeitam todas as noites em que voltavam exaustas, recebendo pouco pelo seu trabalho. Ter uma mãe não significa que você a respeita. Você pode até tatuar no seu braço que “amor é só de mãe”, mas vai continuar sendo inútil enquanto você prega que quando a mulher apanha, ela mereceu. Já se perguntou se a sua mãe já apanhou de alguém?

single mom

Este texto não é sobre intolerantes, sobre misóginos ou abusadores físicos e morais de mulheres. Este texto é sobre duas grandes mães, cujas rotinas distintas refletem a personificação da mãe brasileira dos anos 50,60,70: dona de casa ou mãe solteira; criando filhos praticamente sozinhas; suportando pressões internas, como maridos alcoólatras, e pressões externas, como os boatos sobre sua reputação; doando aos seus filhos aquilo que muitas vezes não tinham nem pra si. E trabalhando. Trabalhando muito! Este texto é sobre Dona Olinda e Dona Lúcia, duas mães que não falharam na missão de formar seus filhos. Não, não falharam. Não culpe a dona de casa, que se dividia em mil para criar seis filhos, por hoje um deles repetir que homossexuais devem apanhar e mulheres devem ganhar menos. Não culpe uma adolescente grávida e abandonada aos 20 anos de idade, por hoje seu filho defender que negros africanos vivem sob uma maldição de “Deus”.

Culpe aquele que viu sua mãe em desgraça para que a vida do filho fosse um pouco melhor, e que mesmo assim, ainda é incapaz de compreender o valor das mulheres, mães ou não-mães, para que eles próprios possam ser quem são.

Por Helena Vitorino

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