O que nós estamos fazendo com todos os quarenta anos em que Gertrude Wagener passou coletando dados, que serviriam mais tarde para a criação da pílula do dia seguinte?

Gertrude nasceu em Iowa, no final do século XIX, filha de um advogado. Aos vinte anos de idade já tinha graduação completa em zoologia, e muito em breve se tornou professora. Coletava diversas amostras e modelos de anêmonas e corais, e se dedicava horas a fio a estudá-los: era isso, o que fascinava Gertrude era o estudo da vida.

Tão apaixonada assim pela existência e sobrevivência dos seres, a bióloga trabalhou em conjunto ao ginecologista John McLean Morris, coletando dados por quarenta anos para produzir o que seria a primeira pílula do dia seguinte. Talvez soe incoerente aos conservadores, mas esta é a realidade: uma das precursoras da contracepção emergencial foi uma pessoa apaixonada pela vida. E foi uma mulher.

Gertruse

A dupla de cientistas da Yale School apresentou em 1966, no Encontro Anual da Sociedade de Medicina Reprodutiva Americana o sucesso da pílula de alta dose de estrogênio como método contraceptivo pós coito. Este foi o início do que viria a se desenvolver mais tarde, com o método do Yuzpe. E Gertrude estava lá. Uma cientista engajada na tecnologia biomédica como alternativa para a libertação feminina. E no dia de hoje, só o que temos a oferecer à Gertrude é um “sinto muito”.

Nós sentimentos muitíssimo que um trabalho de anos, útil para colocar nas mãos das mulheres mais um poder sobre si próprias, e que trouxe conhecimentos extraordinários àquelas que dependiam da medicina tradicional, hoje seja julgado unilateralmente a partir de uma ótica que diverge da ciência: a religião. Ciência e Fé ocupam seu espaço na sociedade e nas mentes dos indivíduos. Todos tem direito a ter sua religião – ou não tê-la, e todos depositam na ciência o crédito que lhes convém. Ainda assim, qual o real sentido de um Estado que se denomina laico pautar as determinantes de toda a nação com base numa perspectiva religiosa?

“Você pode decidir quantos filhos deseja ter.”

A pílula do dia seguinte foi e é um método utilizado com finalidades distintas: a cada mulher cabe do seu drama. E o Projeto de Lei 5069 arranca da mulher a possibilidade de deliberar sobre sua vida. Ainda que sua vida tenha sido arruinada por um estupro. Sabemos que homens também são estuprados – mas diferentemente de nós, não carregarão por nove meses a marca física da violência, crescendo dentro de si. Sabemos também que muitas mulheres optam por manter a gestação em caso de estupro, e amam a criança tanto quanto a um filho planejado. Este projeto de lei agora define que ela vai manter a gestação – querendo ou não. Sim, mesmo aquelas que não tem condições psicológicas de criar um fruto do estupro, e até mesmo aquelas que não tem condições físicas (como meninas estupradas) deverão manter a gravidez. É isso ou vai pra julgamento.

E o funcionário da saúde pode receber uma paciente dilacerada pelo estupro, confusa, aterrorizada, em prantos: caso ele lhe apresente a opção de reduzir seu sofrimento, é julgamento e cadeia. E mais: o funcionário da saúde só atende a vítima do estupro se ela tiver o B.O. na mão. Ainda que suas pernas estejam sangrando após a violência, ainda que seu corpo não consiga se mover de dores, não ouse aparecer no hospital dizendo que é “estupro” se não tiver um B.O. na mão. Para ser atendida, você vai precisar passar umas boas horas na delegacia, registrando queixa e fazendo exame de corpo de delito. Me pergunto, será que quem deliberou sobre isso sabe como a maioria das mulheres é tratada nas delegacias? Sabe que muitas vezes é preciso gastar um dia inteiro para conseguir ser atendida, mesmo o caso sendo simples?

Pelo empenho de Gertrude Van Wagener, sinto muitíssimo por esse retrocesso. É vergonhoso saber que numa época ainda mais aterradora para o sexo feminino uma mulher conseguiu garantir um método de poder – e hoje, quando as coisas ~deveriam~ estar mais avançadas, com maior liberdade e poder de decisão, a invenção da década de 1970 passa a ser perseguida sob justificativas tortas. Mas não é só isso: eles não perseguem as pílulas, eles perseguem a nós.

Uma última reflexão, via o médico Dráuzio Varella: Se os homens parissem, te resta dúvida de que o aborto já seria legalizado, regularizado e apoiado?

Por Helena Vitorino

Projeto de Lei: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1381435&filename=Tramitacao-PL+5069/2013

Mais sobre Gertrude: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3117403/

 

(Escrito por: Helena Vitorino)

Anúncios