A intenção do título não é “sencionalismo”. O estupro não se iniciou e encerrou no ato da penetração genital sem consentimento: a violação física e a destruição psicológica da estudante são muito mais amplas do que o que pode caber na palavra “estupro”.

E já é hora de parar de chamá-la de “estudante”. Jyoti Singh Pandey é seu nome, ela tem rosto, tem cabelos, tem corpo, tem personalidade. Sua família não poupou sua identidade, certa de que seu nome deve ser lembrado. As matérias que noticiaram o estupro coletivo de Jyoti Pandey a resumem em “mulher de 23 anos”, “estudante”, “garota indiana”, cujo abuso sexual brutal levou não só a sua morte, mas a um questionamento mundial do que a Índia – como sociedade – busca esconder a respeito de sua famosa e já estudada cultura do estupro.

Jyoti
A “estudante” tem nome: Jyoti Singh Pandey, 23 anos, indiana nascida em Delhi.

No documentário britânico India’s Daughter (Filha da Índia), produzido pela BBC, diversas peças de um complexo quebra-cabeça social são apresentadas, evidenciando que o caso de Jyoti não foi uma patologia germinando exclusivamente no cérebro de um menor, Ram Singh, Mukesh Singh, Vinay Sharma, Pawan Gupta, Akshay Thakur (sim, estupradores têm nome). O documentário evidencia que o estupro já nasceu com Jyoti, quando seus pais foram acusados de “celebrar demais” seu nascimento, “como se ela fosse um menino”. As taxas de infanticídio feminino na Índia remontam um passado secular de assassinato de bebês, logo no nascimento: preocupações com dote, disposição ao trabalho e extrema miséria colocam a Índia nos primeiros rankings de infanticídio. Este seria o primeiro estupro de Jyoti – condenada pela sociedade por ter nascido mulher.

Jyoti baby
Crime: nascer mulher.

Filha de uma família pobre e de costumes tradicionais, a única do casal, cujo nome “Jyoti” significa “luz”, se identificou desde pequena como futura médica – carreira impensável para seus pais, trabalhadores simples da cidade de Delhi. Crescendo em meio a duras condições financeiras, propôs aos pais que o dinheiro investido desde seu nascimento para o dote fosse usado numa faculdade de medicina. É isso mesmo: a “estudante” retratada nos jornais em 2012 era uma Jyoti resoluta sobre sua carreira profissional. Sua paixão pela medicina levou os pais a investirem não só o dinheiro do dote, mas a vender um pedaço de terra e a realizarem dupla jornada de trabalho para complementar a mensalidade do curso. Os familiares de seu pai diziam que era “estupidez” fazer tudo isso por uma garota, e esta resistência dos parentes foi o segundo estupro de Jyoti – condenada pela família por ter nascido mulher.

Em dezembro de 2012, Jyoti estava concluindo os exames finais do curso de medicina fisioterápica. Com seis meses de estágio, e trabalhando num call center, dormia de 3 a 4 horas por noite, feliz de estar realizando seu sonho. Ao concluir o curso, confidenciou à mãe: “não se preocupe com mais nada agora, eu já sou uma doutora”. Foi ao cinema em 16 de dezembro de 2012 com um amigo, e assistiu o bollywoodiano “A Vida de Pi”. No ônibus de volta pra casa, os dois foram barbaramente agredidos por seis homens, dentre eles um menor de idade, e Jyoti foi abusada sexualmente pelos seis – o terceiro estupro da garota.

Mas é hora de parar de resumir à violência a que Jyoti foi submetida a “abuso sexual”. O estupro coletivo ultrapassou todos os limites imagináveis – se é que existe limites pra isso – do que se possa conceber ao imaginar uma atrocidade contra um ser humano. No corpo completamente espancado, mordidas e hematomas se espalhavam entre as manchas de sangue. Jyoti sofreu violenta penetração por uma barra de ferro, prejudicando de tal maneira sua genitália, que seu intestino saiu. É isso. É duro de ler. Mas Jyoti teve seu intestino removido e sua vagina destruída por seis homens e uma barra de ferro.

Mukesh
Mukesh, um dos estupradores, relata no documentário: “Uma garota é muito mais responsável por um estupro do que um garoto”.

Sob criticidade extrema, permaneceu no hospital por treze dias, quando veio a falecer. Seu amigo sobreviveu, e se recuperou fisicamente dos danos após dois meses de internação. Os seis responsáveis pelo crime brutal foram identificados, e presos, sendo cinco deles condenados à morte por enforcamento, e o menor de idade condenado à detenção por três anos . A mídia noticiou que o ocorrido chocou o mundo, e gerou protestos.

Mas já é hora de parar de dizer que o estupro de Jyoti “gerou protestos”. A violência contra a futura médica indiana gerou uma bolha de fúria em todo o país. Manifestações majoritariamente femininas invadiram às ruas; cordões humanos com milhares de integrantes se estenderam por avenidas; um mar de cartazes, velas e bastões entoou gritos de indignação e exigências eufóricas de uma posição do governo. Gás de pimenta, balas de borracha, jatos d’água, confrontamento direto com a polícia e prisão: nada foi o suficiente para esvaziar as ruas. A infeliz ferida havia sido aberta, para demonstrar um corpo pútrido por dentro: a violência contra Jiyoti arrastou consigo a violência secular de uma nação.

protestos
Uma onda irreversível de todo tipo de protesto e manifestação dividiu a Índia, e marcou para sempre a história do país.

Mesmo após sua morte, Jyoti ainda sofre estupros diários. Há quem concorde com seu trágico incidente – no documentário, o estuprador Mukesh Singh permanece convicto de que a culpada foi a garota. As justificativas são aquelas velhas conhecidas, que transbordam da Índia para quase todas as sociedades: roupas impróprias, horário impróprio, companhias impróprias, comportamentos impróprios. Mukesh é nada menos do que o retrato da Índia, como povo, como nação: além dele, toda a defesa do caso alegou que se Jyoti não estivesse “oferecida na rua como um prato de comida”, o estupro não teria ocorrido. Prato.De.Comida.

defesa
Advogado de defesa dos estupradores de Jyoti: “Em nossa sociedade, nós não permitimos que nossas garotas saiam de casa a noite.” Percebeu o tom de posse na quantidade de “nós, nossas”?

Depois de todo o abafamento sobre os protestos, que abalaram a estrutura do equilibradíssimo paraíso do Taj Mahal e da meditação, a Índia ainda estupra Jyoti de uma última forma – proibindo a exibição do documentário. Como forma de insistir na sua capacidade de lidar com o problema sem encará-lo, a Índia começa a enterrar o legado e a importância de Jyoti, fomentando as matérias de que era uma “estudante”, que sofreu “abuso”, que geraram “protestos”. É esse tipo de violência que nós mulheres já deveríamos estar acostumadas (mas veja só, a gente nunca vai se acostumar com isso): reduzem seu drama até que ele fique do tamanho de uma nota num jornal; apagam seu nome dos registros e te transformam numa “mulher”, numa “estudante”, numa “negra”; te culpabilizam pelo seu próprio crime, te empurrando da cadeira de vítima para a mesa dos réus; e por fim, fazem com que toda sua história vire pó a ser soprado pela tosse das novas gerações.

Agora que você já conhece a história, e assim que assistir ao documentário, não permita mais que Jyoti seja apenas uma “estudante”. Que a sucessão de abusos brutais que sofreu seja um caso isolado. E que sua vida não seja um número, que seus agressores não sejam condecorados; não permita que em sua própria comunidade meninas e mulheres sejam culpabilizadas por terem sofrido abuso. Não permita que o crime de estupro seja tratado de tal forma a parecer vão, vazio, pequeno, banal. Simplesmente NÃO permita. Manter viva a história de Jyoti Pandey é sua responsabilidade. 

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