Rachel Clemens em “Hoje Não, Figueiredo!”

“-Quem é a menina? Quem são pais? Ela foi mandada? Tem algum fundo revolucionário nesta história?”

O tio de Rachel foi chamado a depor sobre a foto que envergonhou toda a ditadura e seus apoiadores, e encheu de comoção um país contra a repressão. Todo o misticismo, a glória do ato, e a braveza de atitude de RRachel Clemsachel, no entanto, se desmontam numa travessa ousadia de criança.

Rachel esclareceu: há uns dias, em sua casa, não se falava em outra coisa além do almoço de seu pai com o presidente. Foi ouvindo o papo dos adultos, e chegado o dia do tal almoço, lançou para a mãe que queria falar com o presidente. Tanto insistiu no assunto que irritou a mãe: na Praça da Liberdade, Rachel encontrou o homem rodeado de um mar de gente, no caminho do jardim de infância. Não teve dúvida: avançou entre as pernas compridas e, sem dar “bom dia” nem nada disparou:

“-Você sabia que meu pai vai almoçar com você hoje?”

E o Figueiredo respondeu:

“- E ele come muito?”

“- Come.”

“- Então não vai sobrar nada para mim.”

“- Não vai mesmo. Agora tenho que ir pro Cirandinha.”

A menina se sentiu contentíssima por ter dado seu recado ao presidente. O pai, que era engenheiro, agora teria e chefe de divisão do DER, teria agora mais uma pauta no almoço político.

O que pouco se sabe sobre a polêmica foto, além do pequeno diálogo travado entre Rachel e o presidente, é que a menina também era da família de militares, que segundo ela, não apoiavam a repressão. Uma longa jornada foi percorrida em busca da foto tirada por Guinaldo Nicolaevsky: ao questionar a Veja, em 1994, para obter aRachel Coelho foto que estampava seu próprio rosto, Rachel recebeu um desagradável “não”, acompanhado da informação que teria de pagar pela imagem, caso mantivesse seu interesse. Indignada com o fato, acreditou que o fotógrafo estivesse por trás, lucrando rios às custas de sua ingenuidade, quando na verdade ele morreu tentando encontrar quem era a corajosa garotinha do “Hoje Não, Figueiredo!”

Rachel afirmou que, mesmo sua atitude não sendo conscientemente voltada contra a ditadura, serviu de alento àqueles que padeceram durante o regime. Em respeito ao fotógrafo e àqueles que vêem em sua imagem um símbolo de resistência, ela se pronunciou sobre os fatos quase trinta anos depois. E acrescentou que é triste ver os valores dessa geração de 18 a 25 anos.

Rachel faleceu em abril de 2015, aos 41 anos, vítima de parada cardíaca.

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