Leolinda Daltro, a Mulher do Diabo

Foi esse o apelido que chicoteou Leolinda Daltro nas ruas: Mulher do Diabo. Em 1909, num país densamente católico, ser a “mulher do diabo” equivalia a ser separada, ser ousada, falar de política, ser feminista, ter amizades masculinas, questionar o catolicismo, reclamar o voto, se preocupar com índios, doutrinar. Leolinda cumpria criteriosamente todos esses requisitos.

Nascida na Bahia em 1860, não deixou que nada a fixasse ao solo: sabe-se que teve cinco filhos, todos criados por familiares, enquanto Leolinda percorria o Brasil disseminando ideais. Indigenista, defendia até a exaustão que os índios brasileiros fossem incorporados ao restante da sociedade, apoiando uma escolarização laica, que fugisse totalmente dos padrões jesuítas ainda presentes no Brasil. Num momento onde a questão do quê fazer com o índio era dividia em duas lógicas (ou dizimá-los sob argumento de “população estranha e inútil”, ou catequizá-los, aculturando-os totalmente), a alternativa de Leolinda era em favor da vida e da contribuição social do índio, e da manutenção – ainda que reduzida – das suas práticas culturais.

Leolinda Daltro

Traçou um ambicioso projeto de penetrar nos sertões e educar os índios às suas custas e providências. O projeto incomodou os dois pilares da elite brasileira à época: a Igreja e os proprietários de terra. O trabalho de Leolinda foi se tornando insustentável, mas a professora seguiu sua jornada até 1897, sendo exposta ao ridículo e ironizada em todas as cidades que passava. Precursora das discussões iniciais da questão indígena no Brasil, não ficou só no discurso: usou de seu corpo e recursos para pulverizar seu plano alternativo às ideias vigentes. No entanto, quando o Serviço de Proteção ao Índio foi criado (1910), bem depois de suas excursões pedagógicas pelo Brasil, Leolinda não foi convidada a integrá-lo.

Fundou o Partido Republicano Feminino antes mesmo que as mulheres pudessem votar, tamanha sua ânsia por inserir a pauta da mulher no desenvolvimento político brasileiro. Pouco antes, entrara com pedido de alistamento eleitoral, que foi veementemente negado. Para pressionar o governo, fundou o partido. Junto da amiga e também ativista Orsina Fonseca, criou a Linha de Tiro Orsina Fonseca, no intuito de prover treinamento com armas de fogo para mulheres, inexistente à época. Em 1918 foi acusada por um leitor do Jornal do Brasil de estar “interessada na masculinização de seu adorável sexo”. Dado seu direito de resposta pelo jornal, ironizou-o de neurastênico e “Adão zangado”. Este, infelizmente, não foi o único desacato que Leolinda enfrentou.

Leolinda

Durante toda sua vida política, como feminista, Leolinda conviveu com uma das mais aterradoras armas contra a voz da mulher: o ridículo. Apontada na rua, alcunhada em ironias e em risadas, Leolinda atou sob os olhares gozadores de quem a achava ingênua por sua luta, “digna de dó”. Sabe quando você precisa ser firme, e a chamam de “louca de TPM”, ou quando age com mansidão, e a intimidam como “mulherzinha que não aguenta pressão”? Essa foi toda a vida de Leolinda. Num período da história em que as condenações massacravam as manifestações de apoio.

Declarou-se uma mulher feliz e plena ao saber, em 1932, três anos antes de sua morte, que o voto feminino estava instituído. Seu livro Da Catequese dos índios no Brasil – Notícias e documentos para a História relata sua luta pelos povos indígenas a partir de seus registros e anotações do Sertão. Morreu num acidente de carro, em 1935.

Em 2013, o estado do Rio de Janeiro instituiu o Diploma Mulher Cidadã Leolinda de Figueiredo Daltro, condecorando a cada ano dez mulheres de destaque na defesa dos direitos e da representação feminina.

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