Mariguella, Lamarca, Stuart Angel, Buarque de Hollanda… Agora me diga: QUANTOS nomes femininos da resistência à Ditadura Brasileira você conhece?

Iara Iavelberg é a esquecida militante que operou durante a década de 60 para combater a ditadura militar do Brasil, cuja morte só pode ser esclarecida trinta anos depois.

Nascida numa família judia em São Paulo, Iara Iavelberg nunca tinha tido contato com o pensamento crítico político até entrar na Faculdade de Psicologia da USP, e se deparar com o fervilho dos grupos e militâncias. Integrou a ala intelectual do MR-8, e passou a viver na clandestinidade, alojada em “aparelhos” (residências de simpatizantes, que eram dispostas aos militantes foragidos). Dentro do movimento, conheceu Carlos Lamarca, desertor do exército brasileiro há dois meses. Os dois se apaixonaram e permaneceram juntos em aparelhos, até que cartazes de busca com seus rostos foram espalhados por todo o país e os fizeram se separar. Iara era respeitada por ter ensinado a Lamarca tudo sobre marxismo e revolução.

Movida para a Bahia em junho 1971, Iara morreu dois meses depois. Sua morte permaneceu controversa até sua família comprovar, trinta anos depois, a realidade do que ocorreu:

Durante um “cerco” (cercamento dos aparelhos feito pela polícia militar ou federal) onde se encontrava com mais dois militantes, Iara conseguiu escapar pulando para o apartamento vizinho, enquanto seus colegas foram presos. Escondida no quarto da empregada, foi surpreendida por um menino, que se assustou ao ver a arma em sua mão. Ele desceu as escadas e avisou a polícia, que subiu até o apartamento. Os relatos dessa passagem foram recuperados apenas recentemente, e vizinhos testemunharam que ao ser surpreendida, Iara gritou que se renderia, quando um tiro foi disparado, matando-a. A versão da polícia foi de suicídio, e a versão da família foi de assassinato. Os invasores do aparelho não sabiam que ali se encontrava a companheira de Carlos Lamarca, e seu corpo foi usado como isca para capturá-lo. Sepultada na ala dedicada aos suicidas no cemitério judaico do Butantã, a família só conseguiu direito de exumação em 2003, e comprovou com a perícia legal que Iara foi vítima de assassinato, e não de suicídio. Seus restos mortais puderam ser removidos para o jazigo da família, no mesmo cemitério.

“Musa da Revolução”, “A Vaidosa do MR-8”, “A companheira de Lamarca”, e outros títulos foram descritos sobre Iara, nunca evidenciando sua participação ativa no movimento como intelectual e operadora, mas apenas como uma mulher bonita, ou como namorada de Carlos Lamarca. Biografias rasas na internet se aprofundam muito mais em seus hábitos de frequentar salões de cabeleireiro do que em seus estudos de psicologia e teorias de Estado. Iara foi esquecida, e quando lembrada, é tida como “a bela e suicida namorada de Lamarca”.

Sua biografia foi aprofundada num documentário realizado por sua sobrinha, Mariana Pamplona, lançado em 2014, chamado “Em Busca de Iara”, onde sua vida e as consequências de sua morte são remontadas com riqueza de detalhes, e fatos até então inéditos.

(Escrito por: Helena Vitorino)

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